27.03.07
Waters em março
Eu estava em pleno gramado do Morumbi e no palco, um punhado de músicos ingleses tocava um r&b pesado, enquanto o balão no formado de um porco passeava pela platéia. Todos cantavam, inclusive os seguranças e não pude segurar o choro. Era muita emoção junta, mais os significados das canções para cada um de nós, a maioria “tiozinhos”, naquele show de Roger Waters.
Li algumas críticas e deu para pensar. Show com músicas do Pink Floyd, mas apenas com um dos integrantes no palco, Roger Waters, autor da maioria das músicas e letra, mas não um showman, já que é baixista, deixando as maiores evoluções para a guitarra de David Gilmour. Então, de alguma maneira, é como se estivéssemos ouvindo uma banda de covers, por um preço altíssimo. Realmente, dá para pensar.
Minha ligação efetiva com o Pink Floyd iniciou com Wish you were here, onde Waters começou a escrever letras melancólicas, utilizando a dor pela doença que tirou Syd Barrett, membro fundador, do seu convívio, letras sobre o relacionamento humano, a força da grana mas, por outro lado, liberou inteiramente a guitarra de Gilmour para seus choros blues sensacionais. Até então, eu sabia da banda porque já trabalhava em rádio. Porque o Edgar me mostrava See Emily Play, Arnold Lynne. Porque rolou Ummagumma, Meddle, o filme do Antonioni, aí, a banda, saindo de peças curtas, psicodélicas, levadas por Barrett, para algo mais viajante, baladas longas, com a banda tateando, mas fazendo seus fàs trafegarem por mundos e mundos. Os shows eram longos, a platéia viajando e a maresia no ar. Há também, e não lembro como encaixar, o Atom Heart Mother, belíssimo, anos 70, o com aquela vaca na capa. Não consigo encaixar. É uma peça longa, com orquestra, sopros. Uma das faixas foi utilizada pelo Jornal Nacional, da Globo, bem no comecinho. Mas sei que depois de Dark Side of the Moon, a convivência entre os músicos piorou. O dinheiro finalmente jorrou e talvez isso tenha sido ruim, como sempre ocorre. Há livros contando a história da feitura do Dark Side. Os problemas e as soluções. As baladas tomam forma. As letras. A guitarra de Gilmour. O hit para Money e a lenda do disco mais vendido de todos os tempos, permanecendo, tal qual Thriller, de Michael Jackson, nas paradas. Mas eu me achei no Wish you were here. E depois há The Wall. Estavam brigadíssimos. Um dos produtores, creio que Bob Ezrin, levou as fitas para sua casa, no Canadá. Ouviu tudo, colocou em seqüência e chamou Waters, o autor de praticamente tudo e que na gravação utilizara muitos músicos contratados. Chegou a demitir Nick Mason e Rick Wright por incompetência, por não obedecerem horários, enfim. E escreveu The Wall misturando tudo, a pressão que os superstars sofrem, virando confortably numbs, como Syd Barrett, novamente, mas principalmente sua própria dor de perder o pai na Segunda Guerra Mundial. Waters transformou essa dor em bilhões de dólares. Lembrei disso quando assisti ao show, com imagens de guerra, signos do filme, belíssimo, dirigido por Alan Parker e com desenhos, não lembro agora o autor, fabulosos. Tenho um cd duplo de apresentação ao vivo de The Wall. Depois veio The Final Cut, sobras do Wall, mas só estava Waters. E acabou. Gilmour voltou com A Momentary Lapse of Reason, creio e sei lá. Tudo bom, digno, ótimos músicos, letras da esposa, mas sem o fogo de Waters. Voltaram a tocar no Live Aid mas convenhamos, são sexagenários riquíssimos. Como convence-los? Dinheiro? O mais recente cd de Gilmour emula todo o som da banda. On a Island, procurem.
Ingleses, como americanos, são burros, e pensam no resto do mundo apenas como lugares para atuar como predadores. Imagino o susto ao perceberem a platéia cantando aos berros. Ao meu lado, o circunspecto segurança, paletó armário e tudo, canta. Eu, às lágrimas, também. Os músicos são ótimos. Três guitarristas, um deles, bem exibido, e eu pensando que ainda o pagam para estar ali. No ar, aquele cheiro de maresia, bem forte, no centro do gramado. A multidão, no entanto, não pula e urra querendo quebrar tudo. Os tiozinhos querem é lembrar como era bom. Cantar as letras, vibrar juntos, assistir ao show. Bela maneira de comemorar um aniversário!

-
criado por edyrap.bel
02:04:56