28.05.07
Depois de Flanar
O blog Flanar é um dos locais onde me atualizo em termos de novidades eletrônicas. Gosto desses gadgets, brinquedos de gente grande. Há um belo artigo sobre iPods, capacidade de armazenamento, programas que permitem driblar obrigatoriedades tolas e os comentários de visitantes como eu. Fiquei tentado a escrever, também, a respeito desse movimento todo que está levando à loucura e falência as gigantes multinacionais do setor, à loucura e riqueza gigantes eletrônicos, jovens talentosos e outros happy few.
Primeiro, minha postura a respeito de “baixar” músicas pela internet, sem pagar. No que diz respeito a outros países, onde o preço de um cd representa menos de 1% do salário mínimo respectivo, creio que lojas como iTunes são uma saída, um começo de conversa, que não sabemos onde vai dar. Ninguém sabe. O mercado, tal como funcionou a vida inteira, acabou. No que diz respeito ao Brasil, sou a favor, como consumidor, de uma revisão total na relação entre a indústria fonográfica e o público. Aqui sempre tivemos o pior dos mundos, com o preço do disco estando entre 10 e 15% de um salário mínimo. Alguns sites começam a vender, como o iTunes, e o preço final de um total de músicas que costumeiramente significava um disco, é estratosférico. Quem pode comprar e deixar de comer? Disco é artigo de alto consumo por seu preço baixo. Depois escrevo sobre meu consumo de músicas. Agora, quero dizer que trabalhando em rádio há mais de 35 anos, acompanhei o auge e a decadência da indústria. Sua incompetência total para gerir seus produtos, seus nichos, preferindo mostrar resultados para a matriz, esgotando gêneros, em política predatória. Em todo esse tempo, raríssimas vezes essas indústrias, investindo milhões, pagando salários altíssimos a seus executivos, tiveram um representante local, divulgador, com mínimas condições para exercer a atividade. Então gastavam milhões em um produto que acabava nas mãos de despreparados? Não podia dar certo. E os executivos? Cansei de estar no Rio de Janeiro e São Paulo, com jovens executivos, a grosso modo, ainda com os cabelos molhados do surf, mas dizendo besteiras, sem conhecer além dos limites de seu bairro, na Zona Sul, mas agora em cargo nacional. Não podia dar certo. Agora, acabou. Os últimos estertores, após MTV ao Vivo, MTV Acústico, Grandes Sucessos, Álbum ao Vivo, DVD, o que pensarem, está no fracasso dos últimos discos do Capital Inicial, Ira e Lobão. São artistas veteranos, ainda vendidos como “jovens”, pois artistas nesse nicho, não existem mais por aqui. Acabou. E pensam que a indústria resolveu diminuir drasticamente o preço dos cds? Não. Agora está lançando um cd especial, com apenas 5 faixas, mais barato, além do cd oficial. Não vai dar em nada. Pior, um vai liquidar o outro. A indústria do disco e DVD pirata venceu, não somente pela incompetência do Governo em relação à Cultura e Educação, mas sobretudo pelo preço do alto, da banalização da Cultura, da transformação da música em artigo de consumo barato. Que me importa se em dois meses, um mês que seja, o meu cd pirata vai dar problema? Já comprei outro. A música, hoje, serve apenas como veículo para beber, drogar, pular, suar, gritar e cair na cama. Como não há leis, civilidade, Cultura, tudo retorna ao que é mais primário. Vejam que o consumo popular do cd não migrou para a internet. Nossos pobres nunca viram um computador. Por isso, compram piratas.
Se eu baixo músicas pela internet? Sim. Mas tenho uma postura. Gasto um bom dinheiro comprando em lojas nacionais, via internet, meus cds de música popular brasileira e também instrumental. Faço parte do público de uma certa faixa etária, que ainda consome cds em lojas. Lembro, uma vez, em Londres, na monumental e falida HMV, dois raros adolescentes estavam ao meu lado. Ouvi um dizer que havia comprado tal disco. O outro o chamou de bobo. Se soubesse, havia baixado na internet e “queimado” um cd. Baixo na internet somente aqueles cds que sei, nunca sairão no Brasil. E também rocks ingleses que toco exclusivamente em meu programa Rock Pan. Sei também que a maioria dos ouvintes, jovem, é pobre, não tendo computador para ir à internet e assim ouvirá e tal.
Fui um dos primeiros a ter iPod. Não me acostumei. Antes que me chamem de superado, um insulto para quem gosta tanto de gadgets, preciso explicar meus motivos. Por absoluta falta de tempo, decidi ouvir meus discos, minha música, meu som, no meu carro. Da maneira que ouço, preciso saber a cada instante que cd é aquele, quem toca ou canta, o nome da música, enfim. Em Belém as distâncias são pequenas para uma caminhada longa, ouvindo música no iPod. Ou o metrô, trem, sei lá. Desculpem, sei que há muitos que tomam ônibus. Não quis ser bobo e arrogante. Pode ser. Mas não é meu caso. No entanto, tenho uma argumentação que considero interessante. Ouvir músicas em iPods cada vez mais potentes, contendo de sete a dez mil músicas, não acabará por banalizar mais ainda a arte de gravar, tocar e ouvir? Me explico. Desde os long plays de vinil, passando depois aos cds, com perda de tamanho, no que se refere à capa, ouvir um disco, uma obra, pressupunha sentar, pensar, admirar a arte da capa, ler a ficha técnica das músicas, as letras. Com o tempo passando, fomos dando jeito de ouvir música e também trabalhar no computador, assistir tv, outras coisas. E os artistas que gravam um número xis de músicas, constituindo uma obra completa, começo, meio e fim, agora submetidos à política de download de uma ou duas faixas, ou apenas aquela que está tocando no rádio? Tornam-se vendedores de faixas? Acaba o conceito de álbum? E como fica Dark Side of the Moon? E essa limitação ao hit, que torna o som mais competitivo, a música mais apelativa, pois cada um briga por seu próprio espaço e download do consumidor, será que é boa?
Confesso que como gosto de música popular brasileira bem tocada, cantada e jazz, além de rock inglês, não consigo me adaptar ao iPod. Nele não posso pegar na capa, ler a letra, a ficha técnica, acompanhar a ordem das músicas segundo decidiu o artista. Assim como até compro alguns DVDs musicais, sobretudo dos grupos de minha admiração, quando jovem, para assistir. Mas dificilmente os assistirei novamente. Tenho o costume, tal como para assistir filmes, locando ou pagando meu ingresso, assistir uma vez. De novo, quem sabe, eu alguns anos e olhe lá. A indústria está louca. Não sabe o que fazer. Os consumidores brasileiros também estão loucos. Confesso que comprei um DVD pirata na minha vida. Foi daquele filme Código Da Vinci. Não dei sorte. Estava péssimo, escuro, não enxergava nada. Para nunca mais. Me sinto agredido com a existência do pirata, mesmo compreendendo que a indústria é uma das principais culpadas por sua existência, ao lado dos últimos governos. Bem, agora não sei como terminar. Estou ouvindo a segunda caixa da coleção de Caetano Veloso, lançada pela Universal. Comprei por gostar de consumir. Não há nenhuma novidade tecnológica em termos de remasterização, já que tudo foi mantido como saiu há alguns anos atrás, outra caixa. A indústria não abusa de sua incompetência e estupidez no trato com o consumidor? Caetano disse dia desses que se pudesse regravaria todo o repertório dos anos 80. Tem alguma razão. Era uma banda engraçada, a formada por Perinho Albuquerque, Tomás Improta, Vinícius Cantuária, Dádi e outros. Havia muita amizade, talento, mas pouco apuro, penso. No entanto, Caetano está em fase esplendorosa, agitando, ousando, agredindo, mesmo ternamente, como em “Terra”, que acabo de ouvir. E lembro que assisti o Especial da Globo sobre sua obra, fraquíssimo, com péssimos e desafinados cantores, valendo apenas pelo próprio Caetano, velhinho, dando banho em todos. Enfim.

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criado por edyrap.bel
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