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Instantâneos da vida

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Terra Blog

Arquivo de: Maio 2007

29.05.07

Mau Cheiro

MAU CHEIRO
Não faço política partidária. Não participo de grupos de interesse ligados a partidos políticos. Sou jornalista, radialista e publicitário. Escrevo livros e peças de teatro. Sou integrante do Grupo Cuíra. Pessoalmente, nunca me beneficiei de qualquer dinheiro do governo para realizar meus projetos, a não ser os legalmente obtidos através das Leis de Incentivo à Cultura. Tenho direito, como cidadão paraense, de criticar a atuação de determinadas pessoas à frente de órgãos públicos estaduais. Posso até não gostar da pessoa infeliz que ocupou o cargo de Secretário de Cultura durante doze anos, por também ter agredido minha família por motivos pífios. Mas tenho direito cristalino a criticar sua atuação à frente de órgão público. Ao final do governo tucano, fiz uma avaliação dos doze anos com críticas fortes, claro, a partir de argumentos. Li nos jornais que ele estaria me processando. Nunca recebi qualquer comunicação. Diariamente, freqüento vários blogs para me informar. Como é facultado o comentário, quando me interessa, comento, lógico, deixando meu nome. Muitas vezes, visitando blogs de clara preferência política, discordo visceralmente mas me contenho. A palavra política não cabe aqui no Pará. Não há conteúdo ideológico. Nenhum está preocupado realmente com o Estado. São interesses em jogo. Está difícil conviver no Pará. Ninguém quer ler argumentos. Ou se é contra ou favor. Ou se é Remo ou Paysandu. Enlouqueceram. Uns e outros acham que quem discorda, não é por ter opinião e sim por pertencer a um grupo, passando então a ser inimigo. Os tucanos não engolem a derrota nas urnas. Continuam acreditando nas mentiras que eles próprios criaram, e não foram engolidas pelo povo que votou contra. E acreditando, começam a lançar seus candidatos à próxima eleição. E o que sugeriram, me fez comentar, simplesmente, “o horror, o horror”, degrau ainda mais baixo do que representa a atual administração da cidade, eleita com o torrencial apoio tucano. Pois ainda pode piorar. E recebo uma agressão de velho amigo, dos tempos de colégio, a quem aprendi a respeitar o talento, mesmo discordando totalmente de suas opiniões políticas de hoje, de hoje, insisto, que leio diariamente em seu blog, freqüentado sobretudo por seus colegas. Leio e respeito. Eles não lêem, não querem saber de argumentos. Quem não concorda, é contra e merece ataque. Não pode ser assim. Ele sugere uma eleição e logo dá seu voto. Primeiro, não há eleição e nem haveria, pois não faço política partidária. Então, é eleição de quê? De amizade? Parabéns, meu amigo deixou de ser meu amigo. Fez sua escolha, mediante as escolhas que fez nos últimos anos, e que lhe deram o repouso na bela praia de Mosqueiro. Quer me jogar em uma arena onde serei apedrejado por seus pares, somente por manifestar uma opinião a respeito de uma possibilidade pública. Será que devo fazer como a maioria deles e me esconder atrás de pseudônimos ou simplesmente anonimato? O mau cheiro do qual vinha falando estar chegando, chegou definitivamente. Não posso conviver com isso. Não vou, sem pertencer aos grupos litigantes, servir de carne para sua refeição, apenas por emitir opinião. Meu amigo fez sua escolha. Ele que fique com a corja que lhe fez companhia nos últimos anos. Eu continuo onde sempre estive. Sinto muito. Não estou mais em idade de perder amigos, mas paciência. O cheiro ruim se espalha. E vêm essas gangues e seus ódios mesquinhos, paroquiais, interesses pequenos, financeiros, a afundar nosso mundo. Pena. Prometo, de agora em diante, nunca mais me manifestar em qualquer outro blog que não seja o meu. Não tenho estomago para isso. Tenho mais com que me preocupar.
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28.05.07

Depois de Flanar

O blog Flanar é um dos locais onde me atualizo em termos de novidades eletrônicas. Gosto desses gadgets, brinquedos de gente grande. Há um belo artigo sobre iPods, capacidade de armazenamento, programas que permitem driblar obrigatoriedades tolas e os comentários de visitantes como eu. Fiquei tentado a escrever, também, a respeito desse movimento todo que está levando à loucura e falência as gigantes multinacionais do setor, à loucura e riqueza gigantes eletrônicos, jovens talentosos e outros happy few.
Primeiro, minha postura a respeito de “baixar” músicas pela internet, sem pagar. No que diz respeito a outros países, onde o preço de um cd representa menos de 1% do salário mínimo respectivo, creio que lojas como iTunes são uma saída, um começo de conversa, que não sabemos onde vai dar. Ninguém sabe. O mercado, tal como funcionou a vida inteira, acabou. No que diz respeito ao Brasil, sou a favor, como consumidor, de uma revisão total na relação entre a indústria fonográfica e o público. Aqui sempre tivemos o pior dos mundos, com o preço do disco estando entre 10 e 15% de um salário mínimo. Alguns sites começam a vender, como o iTunes, e o preço final de um total de músicas que costumeiramente significava um disco, é estratosférico. Quem pode comprar e deixar de comer? Disco é artigo de alto consumo por seu preço baixo. Depois escrevo sobre meu consumo de músicas. Agora, quero dizer que trabalhando em rádio há mais de 35 anos, acompanhei o auge e a decadência da indústria. Sua incompetência total para gerir seus produtos, seus nichos, preferindo mostrar resultados para a matriz, esgotando gêneros, em política predatória. Em todo esse tempo, raríssimas vezes essas indústrias, investindo milhões, pagando salários altíssimos a seus executivos, tiveram um representante local, divulgador, com mínimas condições para exercer a atividade. Então gastavam milhões em um produto que acabava nas mãos de despreparados? Não podia dar certo. E os executivos? Cansei de estar no Rio de Janeiro e São Paulo, com jovens executivos, a grosso modo, ainda com os cabelos molhados do surf, mas dizendo besteiras, sem conhecer além dos limites de seu bairro, na Zona Sul, mas agora em cargo nacional. Não podia dar certo. Agora, acabou. Os últimos estertores, após MTV ao Vivo, MTV Acústico, Grandes Sucessos, Álbum ao Vivo, DVD, o que pensarem, está no fracasso dos últimos discos do Capital Inicial, Ira e Lobão. São artistas veteranos, ainda vendidos como “jovens”, pois artistas nesse nicho, não existem mais por aqui. Acabou. E pensam que a indústria resolveu diminuir drasticamente o preço dos cds? Não. Agora está lançando um cd especial, com apenas 5 faixas, mais barato, além do cd oficial. Não vai dar em nada. Pior, um vai liquidar o outro. A indústria do disco e DVD pirata venceu, não somente pela incompetência do Governo em relação à Cultura e Educação, mas sobretudo pelo preço do alto, da banalização da Cultura, da transformação da música em artigo de consumo barato. Que me importa se em dois meses, um mês que seja, o meu cd pirata vai dar problema? Já comprei outro. A música, hoje, serve apenas como veículo para beber, drogar, pular, suar, gritar e cair na cama. Como não há leis, civilidade, Cultura, tudo retorna ao que é mais primário. Vejam que o consumo popular do cd não migrou para a internet. Nossos pobres nunca viram um computador. Por isso, compram piratas.
Se eu baixo músicas pela internet? Sim. Mas tenho uma postura. Gasto um bom dinheiro comprando em lojas nacionais, via internet, meus cds de música popular brasileira e também instrumental. Faço parte do público de uma certa faixa etária, que ainda consome cds em lojas. Lembro, uma vez, em Londres, na monumental e falida HMV, dois raros adolescentes estavam ao meu lado. Ouvi um dizer que havia comprado tal disco. O outro o chamou de bobo. Se soubesse, havia baixado na internet e “queimado” um cd. Baixo na internet somente aqueles cds que sei, nunca sairão no Brasil. E também rocks ingleses que toco exclusivamente em meu programa Rock Pan. Sei também que a maioria dos ouvintes, jovem, é pobre, não tendo computador para ir à internet e assim ouvirá e tal.
Fui um dos primeiros a ter iPod. Não me acostumei. Antes que me chamem de superado, um insulto para quem gosta tanto de gadgets, preciso explicar meus motivos. Por absoluta falta de tempo, decidi ouvir meus discos, minha música, meu som, no meu carro. Da maneira que ouço, preciso saber a cada instante que cd é aquele, quem toca ou canta, o nome da música, enfim. Em Belém as distâncias são pequenas para uma caminhada longa, ouvindo música no iPod. Ou o metrô, trem, sei lá. Desculpem, sei que há muitos que tomam ônibus. Não quis ser bobo e arrogante. Pode ser. Mas não é meu caso. No entanto, tenho uma argumentação que considero interessante. Ouvir músicas em iPods cada vez mais potentes, contendo de sete a dez mil músicas, não acabará por banalizar mais ainda a arte de gravar, tocar e ouvir? Me explico. Desde os long plays de vinil, passando depois aos cds, com perda de tamanho, no que se refere à capa, ouvir um disco, uma obra, pressupunha sentar, pensar, admirar a arte da capa, ler a ficha técnica das músicas, as letras. Com o tempo passando, fomos dando jeito de ouvir música e também trabalhar no computador, assistir tv, outras coisas. E os artistas que gravam um número xis de músicas, constituindo uma obra completa, começo, meio e fim, agora submetidos à política de download de uma ou duas faixas, ou apenas aquela que está tocando no rádio? Tornam-se vendedores de faixas? Acaba o conceito de álbum? E como fica Dark Side of the Moon? E essa limitação ao hit, que torna o som mais competitivo, a música mais apelativa, pois cada um briga por seu próprio espaço e download do consumidor, será que é boa?
Confesso que como gosto de música popular brasileira bem tocada, cantada e jazz, além de rock inglês, não consigo me adaptar ao iPod. Nele não posso pegar na capa, ler a letra, a ficha técnica, acompanhar a ordem das músicas segundo decidiu o artista. Assim como até compro alguns DVDs musicais, sobretudo dos grupos de minha admiração, quando jovem, para assistir. Mas dificilmente os assistirei novamente. Tenho o costume, tal como para assistir filmes, locando ou pagando meu ingresso, assistir uma vez. De novo, quem sabe, eu alguns anos e olhe lá. A indústria está louca. Não sabe o que fazer. Os consumidores brasileiros também estão loucos. Confesso que comprei um DVD pirata na minha vida. Foi daquele filme Código Da Vinci. Não dei sorte. Estava péssimo, escuro, não enxergava nada. Para nunca mais. Me sinto agredido com a existência do pirata, mesmo compreendendo que a indústria é uma das principais culpadas por sua existência, ao lado dos últimos governos. Bem, agora não sei como terminar. Estou ouvindo a segunda caixa da coleção de Caetano Veloso, lançada pela Universal. Comprei por gostar de consumir. Não há nenhuma novidade tecnológica em termos de remasterização, já que tudo foi mantido como saiu há alguns anos atrás, outra caixa. A indústria não abusa de sua incompetência e estupidez no trato com o consumidor? Caetano disse dia desses que se pudesse regravaria todo o repertório dos anos 80. Tem alguma razão. Era uma banda engraçada, a formada por Perinho Albuquerque, Tomás Improta, Vinícius Cantuária, Dádi e outros. Havia muita amizade, talento, mas pouco apuro, penso. No entanto, Caetano está em fase esplendorosa, agitando, ousando, agredindo, mesmo ternamente, como em “Terra”, que acabo de ouvir. E lembro que assisti o Especial da Globo sobre sua obra, fraquíssimo, com péssimos e desafinados cantores, valendo apenas pelo próprio Caetano, velhinho, dando banho em todos. Enfim.
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A Cultura não vale nada

ONDE A CULTURA NÃO VALE NADA
Em Belém. No Pará. Resultado que dividimos com o resto do Brasil, pela incompetência com que Cultura e Educação vêm sendo tratadas. No Pará, o resultado de doze anos de absurdo e burrice do governo estadual e no caso de Belém, muito mais tempo. No mesmo dia em que li matérias em jornais paulistas comemorando a inauguração da nova Livraria Cultura, agora ocupando o espaço onde estava o Cine Astor, no Conjunto Nacional, também anunciando outras lojas, a recente inauguração da Livraria da Vila em plenos Jardins – no mesmo dia – passei em frente ao Shopping Castanheira e vi, no canteiro central da Br 314, em franca exposição, uns 200 DVDs piratas. Nem precisava ter visto. Basta andar cem metros na Presidente Vargas. A Cultura não vale nada..
No caso das livrarias, não acompanhamos o que acontece nos grandes centros, onde elas viraram local de reunião, misturando também cds, dvds, revistas e cafés, com exceção da Jinkings, lutando briosamente contra a cretinice geral. Em todas as outras, o descaso para com o comprador é brutal. Livros arrumados como simples mercadorias, atendentes absolutamente despreparados para a função, falta de lançamentos, atenção apenas aos best sellers, tudo na contra mão do que é feito lá fora. Se tudo já conspira contra. Se nem Estado, nem Município têm políticas culturais na direção da Literatura, será que há jeito para isso?
E os piratas? Se multiplicam como os pombos da Presidente Vargas. Isso, isso mesmo. As pessoas olham os pombos e sorriem, achando bonitinhas essas verdadeiras ratazanas imundas, cheias de doenças. E quanto vale a Cultura? Não discutamos se entre os piratas está um Rambo da vida, com Stallone, ou Amarcord, de Fellini. Pensemos no formidável esforço profissional, artístico, industrial, que permite a existência dessa obra artística, ali, agora, enfiada em um saco plástico, no chão, também imundo. Quanto vale? Poderíamos pensar que de alguma maneira, a arte chega próximo ao povo, aos que não têm dinheiro para comprar um produto perfeitamente legal. É outro lado perverso da questão. Realmente, é escandalosamente alto o valor que pagamos para ser corretos. Mas minha preocupação é maior. Vai além. É a arte por dois reais. É assistir e jogar fora. Banalização total. Descartável. Nivelada por baixo. Nossa vida também anda assim. Estamos regredindo para a vida na floresta. A Cultura do churrasquinho. Quando aceitamos pagar dois reais pelo DVD que custou cem milhões de dólares para produzir, sem juízo de valor, também aceitamos uma vida de dois reais. Esse fosso imenso em que vivemos sobretudo em Belém. Saio na Presidente Vargas e ali pelas nove da manhã, em frente ao Inss, entre vendedores de “completo” (o que pode ser “completo” e custar apenas 1 real?), mingau, bombons, há churrasquinhos, freneticamente abanados por tísicos, rodeados por outros tísicos, lumpens da área, atraídos pela fumaça cheirosa. Esse sucesso dos bares de beira de vala, sempre lotados. Quem ainda não esteve em um? O churrasquinho nivela por baixo qualquer padrão. O que é filé? O que é gato? Ao invés de um menu com refeições ou lanches, uma lista de espetinhos, churrasquinhos e não vamos conferir sua procedência. Vira tudo churrasquinho. A vida também. E retornamos à floresta, nos bares de beira de vala, onde ficamos ao ar livre, respirando a vala e o dióxido de carbono dos carrões que ficam em volta como a corrida de bigas de Ben Hur. As leis perdem o sentido. Padrões. Civilidade. Voltamos à barbárie, à vida na floresta, sem ruas, regras, trânsito, educação, enfim. Cada um faz o que bem entender. A música vira esse brega, que é mais um grito das classes baixas contra a falta de Cultura, a turma dando seu jeito, recebendo, processando e devolvendo o lixo do qual se alimenta. Quando o Calypso vira milionário negando qualquer vinculação às gravadoras, ao negócio fonográfico, preferindo vender diretamente e até estimular a venda do produto pirata, é que o mundo das classes baixas está dando seu jeito. E passamos por situações hilárias. Entro no McDonald, esse templo multinacional, representante de marketing, globalização, modernidade, enfim. Há um rádio que deveria estar sintonizado em emissora de som jovem, internacional, dançante, dentro da estética. Mas não. Alguém ligou em emissora que toca brega, calypso, algo assim. As vendedoras, não querem nem saber. Atendem requebrando-se e cantando, sussurrando, seus bregas. Só em Belém. Caminho na calçada do Palácio do Rádio, com suas lojas térreas hoje ocupadas por lojas de factoring, fábricas de ganhar dinheiro de classe baixa e média baixa. Monumentos do marketing, técnicas de divulgação, enfim. Uma barraca de pastéis imunda e horrorosa, tem um radinho onde toca brega ou o que valha. Os vendedores das factorings continuam oferecendo produtos, mas agora, discretamente, sussurram seus bregas favoritos. Nivelou por baixo. É o churrasquinho que nivela. Quando a Cultura não vale nada, a vida também perde valor. E vivemos esse momento humilhante, com ladrões de toda ordem se dando bem e nossos jornais nacionais servindo apenas para as denúncias e mortes do dia. E visitamos os blogs e notamos o mau cheiro se espalhando, sem medo de se mostrar como se fosse um paladino do bem viver quando assina seu nome, mas de maneira anônima ou com pseudônimos ridículos, revelando seu verdadeiro odor. Sim, está bem difícil. Procuro fazer minha parte. Ainda é ínfima, mas estou tentando melhorar, juntamente com os amigos do Cuíra. Além de “Laquê”, lotando as terças, nove da noite, no Espaço Cuíra, ainda à espera de quem precisa ser convencido a sair de casa, “tirar a bunda da cadeira”, como diz nosso filósofo presidente, temos agora uma Leitura Dramática às quintas, oito da noite, com entrada franca. Cláudio Barros lê neste dia 31, pela última vez, Ponto 55, capítulo do livro Petróleo, deixado inacabado pelo provocante e brilhante Pier Paolo Pasolini. Na outra quinta, em junho, a leitura trará uma adaptação de um livro da escritora paulista Índigo, que mostra a hipotética troca de cartas entre Bela Adormecida, Gata Borralheira e Branca de Neve. A leitura terá três jovens na faixa etária entre 17 e 20 anos, bem como uma de nossas divas, Mendara Mariani, que por elegância, não declino a idade. Temos ainda em ensaios Abraço, com Cláudio Barradas e Zê Charone, dirigidos por Oriana Bitar e agora neste junho, aguardamos a resposta da Petrobrás, para o projeto que levará ao espetáculo Prc-5 A Voz que Fala e Canta para a Planície, que festejará os 80 anos da Rádio Clube do Pará em 2008. E ainda Nilson Chaves em shows. A Cultura vale muito. Cultura é tudo. Está sendo tratada como Lazer, por absoluta incompetência dos governos. Isso está nos enviando ao fundo do poço. Há sempre um degrau a mais para baixo. A volta à floresta. À barbárie. Até os índios têm mais ordem. Olha o churrasquinho aí..
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12.05.07

Belém do Pará

BELÉM DO PARÁ
Acabei de ler e fiquei fascinado pelo livro Belém do Grão Pará, de Dalcídio Jurandir, em edição da Editora da Ufpa. A história se passa no começo dos anos 20, pouco depois da queda de Antonio Lemos. A família Alcântara perde prestígio e vai morar na Gentil, atrás do quartel do NPOR. É tempo em que a Basílica ainda está em construção. Há passeios no Cinema Olímpia, Grande Hotel, Praça da Republica, Ver o Peso, enfim. Agora, os lauristas estão no poder. O garoto Alfredo chega de Cachoeira do Arari para estudar em Belém. Fica na casa dos Alcântara. É através dos seus olhos que passa essa cidade morena, lânguida, suarenta, com seus bondes e sonhos.
Estava no aeroporto aguardando um filho que chegava e conversando com um velho amigo. E nossa cidade? O que resta dela. Para mim, que moro na Presidente Vargas, a caminhada diária em direção ao meu trabalho é um tormento estético. Impossível não sofrer ao perceber a cada dia, em escala crescente, a agressão perpetrada pelas pessoas, pela falta de lei, autoridade, pelo egoísmo, nosso principal traço, esse nosso lento regressar à selva, livre território, sem ruas, calçadas, sinais, nada demarcado, terra de ninguém, onde qualquer um faz o que quer onde bem quiser. É para lá que estamos indo a passos largos. Enumerar as agressões diárias seria até cansativo. Um dia desses, necessitando passar no Entroncamento, me dei conta do absurdo. Como podemos ser tão incompetentes, burros, néscios? Como é brutal nosso egoísmo. Onde estão os nossos técnicos? Ninguém estudou? Como somos fracos, sem condições de fazer um buraco que seja, uma rótula de trânsito. A culpa é nossa. Nossas elites são péssimas. Nós nos esquivamos, permitimos que ladrões ocupassem os cargos, fossem votados. Fizemos de conta que não era conosco. Agora é tarde. Na história do Dalcídio, eram Lemistas contra Lauristas. Depois vieram os Baratistas. Mais tarde, Jarbistas contra Alacidistas. E então Jaderistas contra Almiristas. Não há luta ideológica, ou política. A luta é de grupos de interesses. O Estado, a cidade que se fodam. A culpa é nossa. Nós votamos. De alguma maneira, ao longo dos anos, mesmo os que lavaram as mãos acabaram beneficiados através deste ou daquele parente distante, agraciado com algum cargo, não para fazer o seu melhor, mas sim fazer o melhor para os seus interesses e do grupo que representa. Ginecologistas na área de turismo, arquitetos na cultura. Aí vem esse crime terrível dos irmãos e todos ficam com medo. O que há por trás de tudo, que algumas pessoas sabem e roem unhas, mas que em nome de alguma responsabilidade absurda, já se cogita não divulgar? Ao que parece, gente de todos os lados está envolvida. Vai ver foi um linchamento. Dois irmãos grandes, fortes, acostumados a situações de tensão, terão sido manietados por dois homens apenas? Que terão dado conta de todo o processo posterior? E tanto dinheiro, comentado, falado livremente nos jornais, sem medo de punição? Será essa a nossa tal elite? Leio diariamente vários blogs locais para me informar. Respeito as opiniões veiculadas e sobretudo a dos donos dos sítios, alguns à esquerda, outros à direita. Mas venho sentindo um cheiro ruim que começa a me causar náuseas. Há uma pessoa desagradável, com tempo suficiente não só para percorrer os blogs várias vezes por dia, veiculando diversas opiniões. Quando assina seu nome, parece tão correto, honesto, cumpridor de seus deveres, justo. Quando vem em pseudônimos até ridiculamente gays, já carrega um tanto de peçonha. Pior, na maioria das vezes, de maneira anônima, revela seu verdadeiro caráter desagradável, estúpido, boçal, burro e idiota. Poderia e deveria ignorar, seguir adiante. É o que tento fazer, mas a náusea que resulta realmente incomoda. Às vezes perco um tanto da vontade quando noto sua presença, o que não é difícil, talvez pelo cheiro de esgoto. É terrível, mas tenham certeza que há vários degraus mais abaixo que Duciomar Costa. E tem esse cheiro.
Queria recomendar o livro Faca na Garganta, de Hermes Leal, principalmente para jovens leitores. Conta a história de Cide e Alice, dois jovens nas cercanias da Marginal em São Paulo. Linguagem forte, dura e o horizonte pequeno de uma galera que está no colégio, mas convive com drogas, violência, festas e muito sexo. É da Geração Editorial. Também li em pocket book Carol, um romance de Patrícia Highsmith. Engraçado que ao ler aquela série que a tornou famosa, virando vários filmes, achava que o personagem tinha um quê de homossexual. Sempre achei. Até saber que Patrícia gostava de mulheres. Assim, Carol, que conta a atração de duas jovens mulheres. Uma, não consegue se entregar ao namorado e se enche de dúvidas ao conhecer uma bela mulher que está se separando. Tudo isso em New York. A data da publicação foi 1975 e assim se explica todo o cuidado em tratar do tema. Não é das melhores obras. Assim como 5:55, o disco de Charlotte Gainsbourg, filha de Serge e Jane Birkin, que primeiro fez sucesso no cinema. A dupla francesa Air faz o instrumental e Jarvis Cocker trata de algumas letras e vocais. Charlotte canta sussurrando, muito charmosa. As músicas são bem interessantes, mas tudo podia ser melhor, como o disco novo de Simone Guimarães, Flor de Pão, que saiu pela Biscoito Fino, a melhor gravadora do Brasil. Voz de timbre especialíssimo, muito parecido com Milton Nascimento, ela conta com sua participação, em um repertório onde comparece como letrista. O acompanhamento que começa com grande banda, incluindo Toninho Horta, Dori Caymmi, Milton, vai diminuindo até contar com Guinga e Lula Galvão, ou Helvius Vilela, Leila Pinheiro, Francis Hime, Renato Braz, em valsas, sambas, toadas, todas muito lindas, de arranjos, letras, músicas e Simone. Puxa, como é bonita a nossa música!
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01.05.07

Ouvi

OUVI
Não sei se lembram ou sabem, mas escrevi durante quinze anos, diariamente, em A Província do Pará, uma coluna musical chamada Zap. Aos domingos, tinha uma página inteira para fazer algo como faço agora, neste blog. Fiquei com o hábito de escrever a respeito dos discos que ouço. De repente, vocês podem pegar uma boa referência, discordar, sei lá.
RICKIE LEE JONES
Rickie Lee é uma figura e tanto. Cantava, bebia e tocava pelos bares da Califórnia, juntamente com Chuck Weiss e Tom Waits, com quem namorou. Alguém ouviu e seu primeiro disco chegou às paradas. Sua música misturava canções de bar, jazz, pop, rock, eu diria, canções boêmias, maravilhosas. Ela, bela figura, um tanto Joni Mitchell. Gravou outros e foi sumindo, na medida em que não sabia lidar com a fama, amores e drogas que devastaram seu belo rosto. De vez em quando vem alguma coisa e eu compro. Deste último, cujo título é The Sermon on Exposition Boulevard, dizem os críticos, é o melhor em muitos anos. É verdade. Mas não é mais a mesma coisa. Vocês perceberão que eu repetirei isso algumas vezes.
BLOSSOM DEARIE
Nunca tinha ouvido esta cantora tão charmosa, de voz quase boneca, fina, terna, charmosa, brutalmente charmosa. Morreu há poucos meses. Acho que foi em um filme. Fiz a busca na web e puxa, era ótima. Procurem. Dia desses, em São Paulo, perguntei se Tutinha, da Jovem Pan conhecia. Não. Procurou. Ouviu. Adorou. No repertório todos aqueles standards. Procurem ouvir Give him the oh la la.
CARLY SIMON
Fui apaixonado por Carly Simon. Começava a trabalhar em rádio quando ela lançou That`s the way I`ve always heard it should be. Aí, casou com James Taylor, fazendo o casal da onda bitter sweet. Autora, cantora sensual e poderosa, belíssima mulher de lábios grossos, seguiu arrebentando a cada disco, até discretamente sair de cena. Há muito James já havia saído de seu lado. Andou doente de câncer. Agora retomou a carreira, gravando standards dos anos 60. O resultado não é bom. Ela não está à vontade em canções que têm outros donos. Não teve vontade ou disposição de tomar para si. Pena. O título é Moonlight Serenade e além desta, tem também I`ve got you under my skin, The More I See You e etc.
HENRI SALVADOR
Uma das figuras mais emblemáticas da música francesa é Henri Salvador, que ainda corre o mundo distribuindo seu poderoso charme e categoria como cantor. Em Reverence, ele esteve no Brasil, gravando com nossos músicos e contando com a presença de Caetano Veloso e Gilberto Gil, o primeiro em Cherche la rose av ec e o segundo em Tu sais je vais t’aimer, que é Eu sei que vou te amar. Os músicos brasileiros dão o show de sempre e é claro que há uma nova versão para Das mon île, linda. Maravilhoso.

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