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Terra Blog

Arquivo de: Junho 2007

29.06.07

vamos ao teatro, mas não me chame

VAMOS AO TEATRO, MAS NÃO ME CHAME
Uso a frase da campanha, com seu malvado engraçado complemento para comentar as atividades do Grupo Cuíra, do qual faço parte. Estamos lutando muito. O bom combate. Se os atores de Rio e São Paulo estão se queixando e até a Rede Globo publica uma página semanal em O Globo e O Estado de São Paulo, visando trazer de volta o fazer teatral à sua importância, imaginem em Belém. Aqui, muito antes dos 12 anos terríveis da administração tucana, já tínhamos uma crise. Problema político. Faltou jogo de cintura para todos. Perdemos público. Mesmo assim, mesmo naquela época, repetidamente, tive casas lotadas com espetáculos de minha autoria. Outros, também. Aí vieram os 12 anos. Acabamos em descompasso com os novos tempos. Problemas de produção. Antes, os patrocinadores compreendiam que colar suas marcas às dos grupos teatrais e seus espetáculos, era muito bom. A mídia cultural, comprovadamente funcionava, sobretudo de maneira institucional. Mas, com a Lei Sarney e depois, a Rouanet, tudo ruiu. Nem os grupos tinham gente preparada para lidar com os documentos solicitados, nem as empresas quiseram mais apoiar na forma de patrocínio, preferindo as leis. Claro, através das leis, utilizam um dinheiro que não é seu e sim do governo, na forma de imposto. Pior, o governo lavou as mãos, colocando as decisões de patrocínio, através da lei, na responsabilidade dos departamentos de marketing das empresas. Esses profissionais, entre uma comédia e uma tragédia, ficam com a comédia. Entre um ator famoso e outro, desconhecido, preferem o famoso. Entre o global e não global, o primeiro. Enfim. E onde estão os produtores? De volta a Belém. Sem organização, sem produção, os artistas, em grande número, ofereceram-se aqui e ali e foram aproveitados em diversos órgãos do governo, onde desempenharam funções burocráticas, mas que garantiram o sustento de suas famílias. Rancoroso, o governo demitiu alguns que protestaram aqui e ali em espasmos raros. Os outros, calaram-se. Como ou faço teatro? Nesse ínterim, na falta de Cultura, falta de Educação, veio a confusão completa. No teatro, casa lotada, apenas se houver algum global. E se for comédia. E os raros lutadores, sem nem conseguir obter datas. Muito difícil. O governo petista, no âmbito federal ainda não se fez sentir. Localmente, devemos conceder mais tempo. Há tentativas válidas, no momento. Enquanto isso, como ficamos?
Começamos com Laquê, às terças, no Espaço Cuíra. Data e horário despintado, mesmo. Em três meses, tivemos bom comparecimento. Podia ser melhor. Ta bom, vamos fazer os finais de semana de junho. Melhorou. Muita dificuldade em conseguir espaços nos jornais. Muitos parecem nos dizer que já falaram a nosso respeito e estamos sendo chatos. Mas não somos como Marisa Monte, Vera Fisher, Fernanda Montenegro que são globais, famosas, vêm em um final de semana, lotam as casas, conhecem apenas a casca da Estação das Docas, acham maravilhosa e saem felizes da vida. Na segunda feira, enquanto elas vão adiante na sua retumbante tour, nós acordamos em Belém e queremos voltar a trabalhar nos próximos dias. Internamente os resultados de Laquê são deslumbrantes. Inclusão social, artística, troca de experiência, melhora de expectativa para quem pensava até em se matar e muitos planos. Agora vamos dar uma parada e recomeçar, novamente na terça, em agosto. Não podemos parar. Também fizemos a coisa do Ciclo de Leituras. Começamos com o Cláudio Barros e Ponto 55, um capítulo do livro Petróleo, de Pasolini. Texto punk, ótimo exercício. O ator, de preto, sem gestos, tendo à frente um notebook, cuja luminosidade de tela também lhe serve como iluminação cênica. E com a melodia, ritmo e precisão, constrói imagens em quem apenas ouve. Depois veio Era uma Vez, adaptado do livro Caixinha de Madeira, de minha amiga Índigo, escritora paulista. Improváveis cartas trocadas por Branca de Neve, Cinderela e Bela Adormecida, adolescentes, com toques modernos. Adelaide Teixeira e Luiza Braga estão na Escola de Teatro. Marcela Condurú é sobrinha do Cláudio Barros. Mendara Mariani é uma das nossas divas. Demos sorte. Elas são ótimas. Talentosas, atentas, disciplinadas, lindas. Encheram de astral e ardor jovem o Espaço Cuíra. Às quintas, oito da noite, grátis. Exercício para a vida inteira. Apaixonante. Tenho dois filhos. Como lidar com meninas? Acho que fui muito permissivo. Como dizer não? Enfim. Lindas.
Agora vamos de Nilson Chaves, um amigo que topou fazer as terças, quartas e quintas, porque encarou o desafio e quer testar novas canções, a maioria não de sua autoria. E no meio da semana porque em julho, vocês sabem... É nosso primeiro show musical. Será que vai funcionar? E a acústica da casa? Julho também terá oficinas destinadas a atores e também ao público do entorno. Também deverá proporcionar ao amigo Ronaldo Fayal, que vem do Rio de Janeiro para ministrar oficina de maquiagem, fazer a leitura dramática de Os Dragões Não Conhecem o Paraíso, de Caio Fernando Abreu, belíssimo texto. Foi feita apenas uma vez, no Curro Velho, ano passado, creio.
Em agosto, devemos voltar com Laquê às terças. Estrearemos, possivelmente, Abraço, de minha autoria, com Cláudio Barradas e Zê Charone. Tenho muitas expectativas. Considero esse meu melhor texto. São dois grandes atores. Cláudio retornando mais uma vez, já que tem sido padre nos últimos dez, quinze anos. Também lançamos para o Premio Funarte, Quando a Sorte te Solta um Cisne na Noite, de minha autoria, que deve contar no elenco com nossas atrizes do entorno do Cuíra. Também aguardamos para o dia 11 a resposta do Premio Petrobrás. Inscrevemos o projeto Prc5, a voz que fala e canta para a planície. É muito ambicioso. A Rádio Clube completa 80 anos em 2008. Meu avô foi um dos fundadores, com dois tios meus. A montagem mistura atividades tão diversas quanto radionovela, musicais, tudo muito interessante e histórico. Será que vai dar certo? Se não sair pela Petrobrás, tentaremos de outras formas. É o bom combate.
Volto ao começo. Tem sido bem difícil. Tirar as pessoas de casa para o teatro. O Espaço Cuíra, hoje, está confortável. Tem cem poltronas que foram do Cine Nazaré. Escolhemos a dedo, as melhores, sem riscos ou rasgos. Muitos amigos estão convidados e depois me dão várias desculpas. Sinto que há pouca vontade. Houve uma perda de importância grave. Até o cinema passa por isso, com Shrecks e tudo. Cultura virou diversão. Se embriagar e pular, suar e capotar. Os bares estão faturando. Na hora de escolher, preferem outra coisa. Mas, se por acidente, por última tentativa, para não frustrar o convite do amigo, decidem comparecer, gostam. Choram. Riem. Saem felizes. A velha mágica do teatro. Gente de carne e osso ali, diante deles, naquele ato impossível de replicar. Por isso, uma Rede Globo se envolve. Sem os atores, sem teatro, nem suas novelas acontecem. É o bom combate, repito. É preciso acreditar. Eu e meus amigos do Cuíra acreditamos, mesmo passando por momentos punks. Acreditamos nisso. Desfechamos tiros em várias direções. Governo federal, patrocínio federal, Lei Semear, quem sabe até a Tó Teixeira. Esperamos ser indicados como Ponto de Cultura. Mas no momento, estamos por nossa própria conta. Vamos ao teatro, e me chame, por favor.
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  • Postado em 18:46:29