04.07.07
bárbara, bela, tela de tv
BÁRBARA, BELA, TELA DE TV
A imagem transmitida para os mais diferentes receptores, a realidade transportada, a imagem inventada, chegando até nós, se apresentando e se impondo, ficando gravada em nossas mentes, não diminuindo a capacidade de imaginação, ao contrário, aumentando, até colaborando, de alguma maneira armazenando inclusive quem não tem acesso à alfabetização, aos fatos culturais. Quem será o dono das imagens? A quem interessa transmitir esta ou aquela imagem, manipulada ou não? Influir na opinião pública. Imagens editadas como no Big Brother. Criando mocinhos e vilões. Londres é talvez a cidade mais vigiada do mundo. Todos são filmados nas ruas, recintos fechados, públicos, quem sabe, também em privados. Razões de segurança. Em Belém, políticos eleitos usam as imagens para mostrar que estão trabalhando bem, embora todos os moradores discordem.
É muito curioso que o escândalo do momento, envolva o presidente do Congresso e uma jornalista. Que o presidente do Congresso faça um filho, mantido em segredo, com a jornalista. O que isso quer dizer? E que usem como ponte um lobista. Estão todos envolvidos no mesmo rolo? O político que transa fora do casamento. A jornalista que transa com um político com quem devia manter relações profissionais. O lobista, bem, o lobista até que fez seu trabalho escroto. E temos material que ocupa as transmissões, sempre com novidades, detalhes sórdidos, defesas ridículas, tudo exposto nas telas de televisão. Nas imagens. É possível sobreviver em Brasília sem se envolver com irregularidades? O que assistimos é a realidade? Ou é uma dança, coreografada diariamente, para nosso deleite, enquanto o principal maestro goza as benesses do cargo, diz o que todos querem ouvir e segue em seu avião particular?
Será que ainda importamos alguma coisa? Os números crescentes da popularidade do presidente, na mesma medida da degradação de suas atitudes, mostram que no país em que vivemos, a falta de investimento em Educação e Cultura, a deterioração do tecido social, trocado pela sobrevivência diária, a imprensa vale cada vez menos. Quem lê jornais? Quem lê análises políticas? Quem lê tanta notícia? Nosso maestro tornou-se mestre na dissimulação frente às câmeras. Não sabe, não viu, mas vai mandar apurar rigorosamente. Aqui em Belém, algumas pesquisas, embora não confiáveis, no mínimo, pelo número de entrevistados e principalmente pelo tempo que falta para a eleição à Prefeitura, conferiram vantagem na preferência do povo a nomes não improváveis, mas que foram extremamente criticados em função de seus desempenhos em cargos públicos. Há um descompasso entre a imprensa, como tambor da sociedade e esta sociedade cada vez mais empobrecida, financeira e culturalmente, municiada através de imagens não confiáveis, seja em matérias pagas, seja em material jornalístico revelando parcialidade política. Qual será a verdade?
Há como que realidades superpostas. Diariamente, no Jornal Nacional, há cobertura da ação policial na Favela do Alemão, Rio de Janeiro. Soldados camuflados, com armas pesadas e postura de guerra, escondem-se nos becos, apontando, procurando inimigos. Como nos filmes. Na mesma cena, despreocupados, moradores, homens, mulheres e crianças passam pra lá e pra cá, na sua azáfama diária. Lojas, casas, ambulantes, mais soldados. Como realidades superpostas. Como se filmados separadamente e depois sincronizados. A guerra de uns e outros, diferente da outra guerra, a da sobrevivência, à margem, criando outra sociedade, sem controle, a sociedade do descontrole, onde o lema é sobreviver. E nessa sociedade tudo é pirata, como uma sociedade cover, sociedade falsa, com outro padrão. É pirata porque não tem dinheiro para ser a verdadeira. Porque, ao contrário de morrer, desaparecer, luta para continuar viva e se reinventar a partir do instinto de sobrevivência. Não há Cultura ou Educação como conhecemos. Uma nova escala de valores é criada. A vida e a morte na tv. Como o senhor que morreu por falta de atendimento adequado, nesta semana, em Belém. O Jornal da Globo, fim de noite, avisa que a imagem que assistimos é do Senhor Fulano de Tal, pouco antes de falecer. Não se trata de edição, realidade virtual, nada. Trêmulo, dramático, ele tenta respirar. E no instante seguinte está deitado, alguns tentando reanimá-lo, sem êxito. A fagulha da vida. Nos damos conta que morrer não é explodir em mil pedaços, ser atingido por um morteiro, ter o corpo pulverizado. Vai a fagulha da vida. Um órgão interno, invisível aos nossos olhos e foi-se. Está na tela. Está na imagem e a mídia tem fome. A sociedade imagética. A sociedade espetáculo tem fome. A quem vamos devorar nesta semana? A nós não basta desnudar as pessoas em seus 15 minutos de fama, naquilo que representa sua vida, sua ação profissional ou particular. Queremos tirar-lhe a roupa, escanear poro por poro de seu corpo. Queremos ver sua vagina, seu ânus, saber se é depilada, se as fotos precisaram de Photoshop, se os seios têm silicone. A juíza Ana Paula vem aí na Playboy. Imagino que será recorde de vendas. É uma mulher bela, de personalidade, que ganhou ainda mais notoriedade ao cometer erros absolutamente normais para homens, imensamente impróprios para uma mulher envolvida em um mundo tão idiotamente machista. Ana Paula sempre soube usar sua beleza a seu favor, usando uniformes apertados, realçando suas formas. Primeiro devoramos seu intelecto, punindo-a em sua profissão. Agora devoraremos seu corpo, em punhetas, inclusive virtuais e após o gozo, esperaremos a próxima. Íris, a interiorana do Big Brother, cuja imagem, editada, proporcionou fazer par com outro participantes, conhecido como Alemão. Fora da casa, sem o mesmo apelo midiático do namorado, ela se apresenta no açougue, certa que é seu último grito, em seus 15 minutos. E depois, Mônica, a jornalista, a namorada do presidente do Congresso, mãe de sua filha, não assumida. Queremos devorá-la! A imprensa nua. A jornalista e o político. Romeu e Julieta. Renan foi desnudado em sua vida particular. Nas absurdas irregularidades cometidas. Mônica, revela seu corpo, que foi profanado, a imprensa, profanada ou em conluio, ou pior, quem sabe, em movimento estudado, faz uma filha com o presidente do Congresso, ambos perfeitamente assumidos em seus cargos e no entanto, completamente fora daquilo que deviam ser, dentro da honestidade e da ética, mesmo que seu amor tenha sido verdadeira. Será? Está tudo na bárbara, bela, tela de tv.

-
criado por edyrap.bel
13:02:23