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Terra Blog

Arquivo de: Agosto 2007

28.08.07

De volta

Meu filho perguntou a razão de não estar postando há quase trinta dias. Não soube responder. Vários fatores. Primeiro a preguiça, mortal. Confesso também ter ficado jururu com a morte do Lauande, a quem não conhecia pessoalmente, mas admirava através do blog. Seu assassinato me pegou em uma daquelas fases em que nos sentimos desmotivados a prosseguir. A loteria da morte. É questão de ser escolhido. Somos, da classe média, alvos preferenciais. Sua morte nos trouxe, novamente, o impacto da violência, a impunidade, que há muito faz parte do dia a dia dos menos favorecidos e que já está instalada entre nós. Somos alvos. Temos bens que muitas outras pessoas não têm. Temos dinheiro, carro, roupas, relógios, temos comida. Não interessa se trabalhamos de maneira honesta para obtê-los. Convenhamos, se algum de nós for submetido às agruras porque passam os mais pobres, vai aquilatar seus valores pessoais por outra ótica. Seu filho, em casa, chora com fome, febre, dor. Há muitos dias. E você? Sem dinheiro, saúde, educação, emprego. Há os criados sem nada a não ser a violência. Quando assaltam, misturam necessidade com vingança, devolução daquilo que lhes falta com violência. Quanto vale a vida? A de Lauande, um susto, a dúvida, o gesto de defesa, o nervosismo, a raiva. Os tiros. Pena.
PEQUENAS ALEGRIAS
Meus amigos são muito queridos. Karine Jansen, por exemplo. Mesa de bar. Vem à baila o livro que terei lançado na Inglaterra, em outubro, pela editora a flame books. Ela se espanta pela falta de repercussão entre nós. Argumento que é típico dos paraenses. Não gostamos de bater palmas. Como disse Tom Jobim, o sucesso é um pecado. Vai ver também é problema meu, de ficar calado, de dizer a poucos. Pois Karine mandou ver através de sua rede amigos no Orkut. Como resultado, matérias em sites e o telefonema do Diário do Pará, que publicou, sábado passado. Até agora, fora alguns amigos próximos, ninguém mais percebeu. Talvez não leiam jornais de sábado. Paciência. Mas digo aqui que é uma pequena alegria especial. Em minhas atividades, há sempre uma equipe, participando, dividindo as obrigações e louros, quando dá certo. No livro, sei que estou só. Claro, há colegas que fazem a capa, revisão, e finalmente, a Editora. Mas quando o livro é lido, estou só. Acrescentemos aí a dificuldade em morar longe, estar distante dos acontecimentos, feiras, encontros, bate papos, sem o amparo de uma editora de renome, com seus presentes e argumentos, enfim. Venho subindo degraus. Meu primeiro livro obteve quatro linhas em um jornal vespertino de São Paulo. O segundo, matérias em todos os jornais do Rio e São Paulo, principalmente. O terceiro, com lançamento em SP, chega agora à Inglaterra, com possibilidades para Estados Unidos e Canadá. Dará certo? Novamente, depende do leitor gostar da minha escrita. A importância disso? O mercado europeu responde por 30% do consumo mundial. O mercado americano, mais 30%. E há propostas para tradução para o francês e castelhano. Um grande salto. Uma grande possibilidade. Pode não dar em nada. Já valeu a pena por ter chegado lá, no terceiro trabalho em romance. Escrevo para ser lido, mas principalmente, escrevo para mim. Gosto de me contar essas minhas histórias. Então sou feliz por isso. Ando preocupado com a Cultura e os jovens. Liguei no último episódio de Os Sopranos. Estava dublado, ainda que mantendo as legendas, após reclamações. A emissora disse que havia muitas queixas em não conseguir acompanhar as legendas. Isso é terrível. As legendas mantém as vozes originais, seus significados, melodias, tudo. Para muitos, que dominam a língua, um bom exercício. Mas vem a cultura do churrasquinho e zera a Cultura. Esses que não acompanham as legendas, são os mesmos para quem Hollywood está fazendo filmes somente de imagens espetaculares, explosões, violência, nada de trama, mistérios, mensagens subliminares. O que interessa é quadros por minutos, fotogramas de no máximo três segundos, multiplicando-se, ao invés da fala, do ser humano conduzindo a trama. Li na Foilha que Roger Scrutom acaba de lançar A Cultura importa – fé e sentimento em um mundo sitiado, a respeito da necessidade de criar uma elite cultural que difunda a Cultura para aqueles que não a compreendem, como força de permanência, sobrevivência da Cultura Ocidental. Na nossa realidade, a classe baixa nem sabe o que é isso. A classe média está encastelada em suas torres de concreto. Como conseguir atrair esse público que hoje, pensa que Cultura é beber, gritar, cantar e pular no show de Ivete Sangalo? Como convencer esse um que está de abada, celular, trocados e a RG na cintura, pronto para o axé, a assistir 90 minutos de teatro, refletindo, raciocinando, acompanhando a apresentação? E no dia seguinte estão desfilando com seus Audis, pastas Louis Vuitton, perfume Dior, crentes que estão abafando. Dana Thomas, que foi crítica de moda da Newsweek lançou o livro “De Luxe – Como o Luxo perdeu o Brilho”, onde fala do consumismo desenfreado, a partir da atitude das marcas de maior prestígio em transformar aquilo que era exclusividade em acessibilidade. As marcas eram luxuosas, tinham brilho, exatamente por serem artesanais, quase exclusivas. Agora, representam ascensão social. As etiquetas saíram do forro das roupas para a frente de camisas mais baratas, de maneira a conferir um brasão, um pertencimento à família da marca, àquele que a está vestindo. E mesmo assim, continua havendo o mercado do luxo, cada vez mais fechado. Lucien Karpik, francês especializado em sociologia econômica, escreveu o livro A Economia das Singularidades, falando da segmentação. Onde o que importa é o julgamento, não a conta a pagar. Aqui, nada a ver com a massificação das marcas. Pelo contrário. Trata-se de estudar os mercados como construções sociais e não como entidades cujo funcionamento corrói a Cultura, a Ciência e os próprios vínculos sociais. Nesta Economia das Singularidades, o mercado é de qualificação e não de preço. E essa qualificação se dá pela soma, pela operação conjunta de dispositivos que vão desde redes pessoais, críticas especializadas, revistas, prêmios, informações, enfim. Uma amigo, a quem você respeita intelectualmente, passa a usar camisas de determinada loja. Nem interessa se é cara, exclusiva, nada. Depois, em revista de moda, há uma matéria com aquela camisa, como que uma confirmação. Este é o mercado de singularidades, transformando valores impalpáveis em diferenciais quase palpáveis, sobretudo entre bens culturais, de luxo e serviços profissionais personalizados.
A BARBÁRIE
Mais uma vez, o grande medo, já que consumo e mercantilização querem transformar a Arte em mercadoria. A produção artística fazendo parte do amplo processo de dominação e alienação social. A propaganda uniformizando e dirigindo gostos de uma sociedade sem condições de reagir ou formar seu próprio conceito, impedida de ter livre escolha. Assim, essa singularidade é muito importante, porque não discute preço, mas uma série de fatores. E para chegar a isso, é preciso Cultura. É preciso assistir, ler, ouvir. Precisamos sair dessa letargia. Tenho acompanhado outra discussão, pelos jornais, sobre o Brasil, afinal, ter saída, ou não, já que vivemos um momento tão tenebroso em caos social, de inteligência, administração, não importando, peloamordeDeus, se são petistas, tucanos, rubro negros, corinthianos, bicolores ou azulinos. Temos saída, afinal? Quando assumiremos posição condizente com o tamanho de nossa área, de nossas potencialidades? Olhando em volta, sinto-me como o General Custer, cercado pelos Sioux. Pior. Como Custer, aprisionado em seu ex-forte, convivendo com os inimigos. Basta caminhar do edifício onde moro até meu trabalho, na Presidente Vargas, 200 metros, se tanto, e perceber que a barbárie caminha a passos largos, eliminando resquícios da civilização, como a conhecemos. Todos, nesta que foi uma bela avenida, portam-se como se ela não existisse e sim, um caminho em meio a selva amazônica, sem espaços determinados para nada, bastando ocupar, como bem entender e como quiser.
Fiquei em vírgula. Entrou gente na sala e preciso trabalhar. Talvez continue.
  • criado por  edyrap.bel criado por edyrap.bel
  • Postado em 18:48:27

27.08.07

De volta

Meu filho perguntou a razão de não estar postando há quase trinta dias. Não soube responder. Vários fatores. Primeiro a preguiça, mortal. Confesso também ter ficado jururu com a morte do Lauande, a quem não conhecia pessoalmente, mas admirava através do blog. Seu assassinato me pegou em uma daquelas fases em que nos sentimos desmotivados a prosseguir. A loteria da morte. É questão de ser escolhido. Somos, da classe média, alvos preferenciais. Sua morte nos trouxe, novamente, o impacto da violência, a impunidade, que há muito faz parte do dia a dia dos menos favorecidos e que já está instalada entre nós. Somos alvos. Temos bens que muitas outras pessoas não têm. Temos dinheiro, carro, roupas, relógios, temos comida. Não interessa se trabalhamos de maneira honesta para obtê-los. Convenhamos, se algum de nós for submetido às agruras porque passam os mais pobres, vai aquilatar seus valores pessoais por outra ótica. Seu filho, em casa, chora com fome, febre, dor. Há muitos dias. E você? Sem dinheiro, saúde, educação, emprego. Há os criados sem nada a não ser a violência. Quando assaltam, misturam necessidade com vingança, devolução daquilo que lhes falta. Quanto vale a vida? A de Lauande, um susto, a dúvida, o gesto de defesa, o nervosismo, a raiva. Os tiros. Pena.
PEQUENAS ALEGRIAS
Meus amigos são muito queridos. Karine Jansen, por exemplo. Mesa de bar. Vem à baila o livro que terei lançado na Inglaterra, em outubro, pela editora a flame books. Ela se espanta pela falta de repercussão entre nós. Argumento que é típico dos paraenses. Não gostamos de bater palmas. Como disse Tom Jobim, o sucesso é um pecado. Vai ver também é problema meu, de ficar calado, de dizer a poucos. Pois Karine mandou ver através de sua rede de amigos no Orkut. Como resultado, matérias em sites e o telefonema do Diário do Pará, que publicou, sábado passado. Até agora, fora alguns amigos próximos, ninguém mais percebeu. Talvez não leiam jornais de sábado. Paciência. Mas digo aqui que é uma pequena alegria especial. Em minhas atividades, há sempre uma equipe, participando, dividindo as obrigações e louros, quando dá certo ou errado. No livro, sei que estou só. Claro, há colegas que fazem a capa, revisão, e finalmente, a Editora. Mas quando o livro é lido, estou só. Acrescentemos aí a dificuldade em morar longe, estar distante dos acontecimentos, feiras, encontros, bate papos, sem o amparo de uma editora de renome, com seus presentes e argumentos, enfim. Venho subindo degraus. Meu primeiro livro obteve quatro linhas em um jornal vespertino de São Paulo. O segundo, matérias em todos os jornais do Rio e São Paulo, principalmente. O terceiro, com lançamento em SP, chega agora à Inglaterra, com possibilidades para Estados Unidos e Canadá. Dará certo? Novamente, depende do leitor gostar da minha escrita. A importância disso? O mercado europeu responde por 30% do consumo mundial. O mercado americano, mais 30%. E há propostas para tradução para o francês e castelhano. Um grande salto. Uma grande possibilidade. Pode não dar em nada. Já valeu a pena por ter chegado lá, no terceiro trabalho em romance. Escrevo para ser lido, mas principalmente, escrevo para mim. Gosto de me contar essas minhas histórias. Então sou feliz por isso. Ando preocupado com a Cultura e os jovens. Liguei no último episódio de Os Sopranos. Estava dublado, ainda que mantendo as legendas, após reclamações. A emissora disse que havia muitas queixas em não conseguir acompanhar as legendas. Isso é terrível. As legendas mantém as vozes originais, seus significados, melodias, tudo. Para muitos, que dominam a língua, um bom exercício. Mas vem a cultura do churrasquinho e zera a Cultura. Esses que não acompanham as legendas, são os mesmos para quem Hollywood está fazendo filmes somente de imagens espetaculares, explosões, violência, nada de trama, mistérios, mensagens subliminares. O que interessa é quadros por minuto, fotogramas de no máximo três segundos, multiplicando-se, ao invés da fala, do ser humano conduzindo a trama. Li na Folha que Roger Scrutom acaba de lançar "A Cultura importa – fé e sentimento em um mundo sitiado", a respeito da necessidade de criar uma elite cultural que difunda a Cultura para aqueles que não a compreendem, como força de permanência, sobrevivência da Cultura Ocidental. Na nossa realidade, a classe baixa nem sabe o que é isso. A classe média está encastelada em suas torres de concreto. Como conseguir atrair esse público que hoje, pensa que Cultura é beber, gritar, cantar e pular no show de Ivete Sangalo? Como convencer esse um que está de abadá, celular, trocados e a RG na cintura, pronto para o axé, a assistir 90 minutos de teatro, refletindo, raciocinando, acompanhando a apresentação? E no dia seguinte estão desfilando com seus Audis, pastas Louis Vuitton, perfume Dior, crentes que estão abafando. Dana Thomas, que foi crítica de moda da Newsweek lançou o livro “De Luxe – Como o Luxo perdeu o Brilho”, onde fala do consumismo desenfreado, a partir da atitude das marcas de maior prestígio em transformar aquilo que era exclusividade em acessibilidade. As marcas eram luxuosas, tinham brilho, exatamente por serem artesanais, quase exclusivas. Agora, representam ascensão social. As etiquetas saíram do forro das roupas para a frente de camisas mais baratas, de maneira a conferir um brasão, um pertencimento à família da marca, àquele que a está vestindo. E mesmo assim, continua havendo o mercado do luxo, cada vez mais fechado. Lucien Karpik, francês especializado em sociologia econômica, escreveu o livro A Economia das Singularidades, falando da segmentação, onde o que importa é o julgamento, não a conta a pagar. Aqui, nada a ver com a massificação das marcas. Pelo contrário. Trata-se de estudar os mercados como construções sociais e não como entidades cujo funcionamento corrói a Cultura, a Ciência e os próprios vínculos sociais. Nesta Economia das Singularidades, o mercado é de qualificação e não de preço. E essa qualificação se dá pela soma, pela operação conjunta de dispositivos que vão desde redes pessoais, críticas especializadas, revistas, prêmios, informações, enfim. Uma amigo, a quem você respeita intelectualmente, passa a usar camisas de determinada loja. Nem interessa se é cara, exclusiva, nada. Depois, em revista de moda, há uma matéria com aquela camisa, como que uma confirmação. Este é o mercado de singularidades, transformando valores impalpáveis em diferenciais quase palpáveis, sobretudo entre bens culturais, de luxo e serviços profissionais personalizados.
A BARBÁRIE
Mais uma vez, o grande medo, já que consumo e mercantilização querem transformar a Arte em mercadoria. A produção artística fazendo parte do amplo processo de dominação e alienação social. A propaganda uniformizando e dirigindo gostos de uma sociedade sem condições de reagir ou formar seu próprio conceito, impedida de ter livre escolha. Assim, essa singularidade é muito importante, porque não discute preço, mas uma série de fatores. E para chegar a isso, é preciso Cultura. É preciso assistir, ler, ouvir. Precisamos sair dessa letargia. Tenho acompanhado outra discussão, pelos jornais, sobre o Brasil, afinal, ter saída, ou não, já que vivemos um momento tão tenebroso em caos social, de inteligência, administração, não importando, peloamordeDeus, se são petistas, tucanos, rubro negros, corinthianos, bicolores ou azulinos. Temos saída, afinal? Quando assumiremos posição condizente com o tamanho de nossa área, de nossas potencialidades? Olhando em volta, sinto-me como o General Custer, cercado pelos Sioux. Pior. Como Custer, aprisionado em seu ex-forte, convivendo com os inimigos. Basta caminhar do edifício onde moro até meu trabalho, na Presidente Vargas, 200 metros, se tanto, e perceber que a barbárie caminha a passos largos, eliminando resquícios da civilização, como a conhecemos. Todos, nesta que foi uma bela avenida, portam-se como se ela não existisse e sim, um caminho em meio a selva amazônica, sem espaços determinados para nada, bastando ocupar, como bem entender e como quiser.
Fiquei em vírgula. Entrou gente na sala e preciso trabalhar. Talvez continue.

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