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DISNEY ZONA – TREM FANTASMA - MEUS AMIGOS SÃO BARATOS 2
Transito pela Presidente Vargas desde que me entendo. Mesmo quando morei em outro bairro, por força do trabalho em rádio, estive sempre no entorno do edifício Palácio do Rádio. Agora, moro no coração desta avenida hoje dilacerada, com veias abertas, apodrecendo, se degradando sem que ninguém de direito faça algo. Mas é preciso procurar pérolas mesmo nos chiqueiros. Há alguns anos atrás escrevi um artigo encomendado por um blog paulista, a respeito de amigos que tenho, gente de rua, justamente neste entorno do meu trabalho e que pega, hoje, o local onde também fica minha residência. Mais ainda, pega o Espaço Cuíra. Aí está completo. Naquela época, me reportei ao Baldo, que toma conta de carros somente à tardinha, na Praça da República, em frente à Banca do Alvino. Ao Louro, engraxate da esquina da Ó de Almeida, já falecido. Ao Imperador, com sua esposa Pantera. Ao gringo, uruguaio que um dia desses vi vagando pela João Alfredo. Até escrevi uma peça, chamada “Quando a sorte te solta um cisne na noite”, que acaba de receber o Premio Myriam Muniz, da Funarte e será montada brevemente pelo Cuíra. Faltaram alguns. Veio o Espaço Cuíra e agora, ao invés de apenas olhar do alto, passei a conviver com a parte detrás da Presidente Vargas, a Primeiro de Março e seus personagens maravilhosos. Felizmente temos ótima convivência. Eles nos protegem, nós ajudamos. A Primeiro de Março é o quintal da Presidente Vargas e se esta é uma avenida em decomposição, imaginem seu quintal, onde todos os prédios jogam lixo, figuras absurdas transitam, vivem, comerciam, traficam, enfim. Novamente, procuremos pérolas no chiqueiro. Foi em uma noite quando Kiko, para nós T. Rex, estava descolando algum como “olhador” de carro, durante uma sessão de “Laquê”, no Espaço Cuíra, que tive a idéia. Parece cruel. É cruel e assim mesmo, não há como não usar humor. O Kiko é um rapaz que tem uma série de deficiências. Mental, certamente, embora não saiba dizer quanto, tampouco o quanto piorou com a ingestão contínua de cola de sapateiro e derivados. Física, porque é como ter os tendões dos braços e das pernas atrofiados, com os braços curtos demais e as pernas também, em comparação com os pés. Isso, mais o formato de sua cabeça, resultou no apelido de T. Rex. Vive entre as casas de prostituição da Primeiro de Março. Quando bebe ou cheira, dorme nas calçadas. Quando se aborrece, levanta a voz. Todos, ali, falam muito alto. Como vivem ao ar livre e mesmo as prostitutas ficam todas à porta, o mundo é sua casa. E assim, falam alto para todo esse mundo ouvir. Talvez estejam é gritando por socorro, sem parar. Acho que é isso. Pois é, o T. Rex estava fazendo sinais, com seus bracinhos, ajudando uma moça a manobrar seu carro. Noto que a manobra cessou, embora o carro ainda não esteja estacionado corretamente. Quando vejo, percebo a motorista, boca aberta, num misto de medo e curiosidade, encarando T Rex e seus sinais. Fui até lá e com gestos, dei-lhe a segurança que precisava. É um pária. Vive do que consegue amealhar. Com sua deficiência, não consegue sequer assaltar, tomar o que precisa. Tem equilíbrio frágil. Precisa de ajuda. De quem? Já o convidamos a tomar um banho, vestir-se com roupas limpas e assistir ao espetáculo, mas não creio que ele tenha sujeição para isso. Grande figura.
Temos a Muda. Prostituta muda? Sim. Não deve ter mais do que 30 anos, branca, bonita, sim senhor, bonita. É violentamente belo vê-la oferecer seus préstimos, com gestos. Sexo oral, vaginal, anal e o preço. Uma vez estava fora de seu ponto. Na esquina da Assis de Vasconcelos com a Osvaldo Cruz. Passei de carro e ela chamou, sem me reconhecer. De volta, acenei apenas. Dois dias depois veio desculpar-se. Parece tão cuidadosa, boa pessoa. Quando se aproximam cheirando cola, fumando maconha ou coisa pior, afasta-se revoltada. Imagino quando faz sexo, como é a comunicação. Bem, talvez nem haja comunicação, não é?
Colega dela, Célia, conheço mais de vista. Tem amizade com a turma do Cuíra. Mora bem ao lado, pela Riachuelo. Quem visitou diz que sua casa, seu quarto, são um mimo de arrumação cafona, mas decente. As cortininhas, tapetinhos, fronhas de travesseiro. Ela própria, morena farta, gorda, digamos, anda cheia de dengo, lentamente, gordamente, com sua cabeleira de dreadlocks e clientes fixos, geralmente senhores de alguma idade.
Temos a Pantera, já mencionada no outro artigo, por conta de seu Imperador. Também escrevi um conto sobre o casal, que deve sair no “Um sol para cada um”, meu próximo livro. Era prostituta da área, mas dizem, foi o excesso de drogas que a levou à insanidade. Mora na calçada, com o Imperador, mas sai circulando, falando sozinha, sempre se defendendo de alguma acusação, mancando de um ferimento na palma de um dos pés. De repente, tira a roupa. Anda nua, magricela, esfomeada, os seios duas muxibas, coitadinha, afrontando o mundo. Pede dinheiro e ameaça tirar a roupa se houver negativa. Ninguém faz nada. Devia ser retirada da rua. Ter um lugar para morar. Receber tratamento. Seu desfile quase que diário é mais uma das chagas da Presidente Vargas.
Outro amigo é Marcos, vendedor de incenso. Foi um dos primeiros a chegar ao Espaço Cuíra. Inscreveu-se e foi figurante de “Andar às Vozes”, filme de Eliana Caffé que deverá ser mostrado ano que vem. Diz que já esteve em diversos outros filmes e comerciais de televisão. Acha que o sucesso no Cuíra vai levá-lo até a Globo. Tem alguma deficiência mental, talvez até por falta de alimentação. Não gosta de banhos, talvez porque precise pagar para isso e o dinheiro é escasso. Está no elenco de “Laquê”. É histriônico de natureza. Tem graça, humor e timing. Problemas seríssimos nos dentes. Que dentes? A Associação Brasileira de Odontologia foi parceira e ajudou a galera a dar uma geral nos sorrisos. O caso dele é mais sério. Tratamento pesado, embora gratuito. Nem sei como estão as coisas. Medo de câncer. Alguns dias em que esteve em “Laquê”, dormiu na rua, por conta do horário rígido de fechamento de portas na pensão onde estava dormindo.
E o Júnior? É um psicopata. A partir do que conta, vivia com a mãe até esta falecer. Sem ninguém no mundo, mora na rua. Fala sozinho. Auto flagela-se com murros fortes, no peito. Às vezes discute com outros e é severamente agredido. Come o que dão. Veste o que recebe e já troca por qualquer coisa, de pasta a cola. É de natureza boa. Parece incapaz de agressão, mas sua doença não recomenda tanta aproximação, além de lanches e peças de roupas.
Com um leve retardo, penso, temos Vitória, que está no elenco de “Laquê”. Prostituta, mente livre, sem hora nem lugar para nada, diz para quem quiser ouvir que é compositora e cantora de brega. Que tem repertório para um disco inteiro e que ainda fará sucesso. Uma noite, diante de Nilson Chaves, despejou umas quatro ou cinco de suas canções para que avaliasse. A turma é grande, mas fico por aqui. O artigo é porque pensei como essas personagens ficariam no antigo Trem Fantasma do Parque de Nazaré. Carrinhos toscos, em trilhos, o bastante para assustar as crianças. Muitas vezes fui o trajeto todo de olhos fechados, abrindo à saída e comentando minha coragem em ir. Lembrei do carrinho passando e cada personagem acenando. É uma lembrança carinhosa, suscitando imagem cruel, sei, mas bolas, um pouco de humor também é bom. Tenho primos, hoje morando em Fortaleza, que moravam, quando garotos, nas cercanias da Basílica. Quando entravam na Casa dos Horrores, na Mulher Macaco ou Trem Fantasma, era uma gritaria. Os monstros gritavam apavorados. Os sacanas entravam com bombinhas ou fósforos para tocar fogo nas fantasias. E eu com medo!
Tenho a idéia de uma foto com toda essa turma, para a capa desse meu livro de contos. A Disney Zona... Os personagens em miniatura.. De alguma maneira eles são lindos, verdadeiros, profundamente humanos e amigos deste mundo, mundão largo, onde vivemos. Meus amigos são baratos!