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Terra Blog

Arquivo de: Setembro 2007

27.09.07

Reinando em escombros

REINANDO EM ESCOMBROS
Li há algum tempo um comentário de Guilherme Wisnik, na Folha, sobre o videodocumentário Lagos Wide and Close, feito pela holandesa Bregtje van der Haak. Lagos, na Nigéria, será a terceira maior metrópole do mundo em poucos anos, mesmo que tenha total falta de infraestrutura e planejamento. O vídeo mostra cenário caótico: alagados ocupados por palafitas, lixo por todo lado, casas e pessoas espremendo-se, trânsito em colapso. Tudo lá é ilegal. Tudo é reciclado. Em Lagos, tudo o que foi deixado pela civilização, como a conhecemos deixou, após o boom do petróleo, foi recriado. As vias estão permanentemente engarrafadas, pelo excesso de veículos e nenhum planejamento e porque há pessoas morando ali, ao ar livre, fazendo comércio. Prédios abandonados são invadidos. Se há um viaduto, há quem more embaixo. A civilização, como conhecemos, as regras de convivência, educação, disciplina, são reinventadas. Eles estão de volta à selva, mas agora, selva de concreto. Não pude deixar de lembrar de Belém.
Basta tangenciar a Vila da Barca, a invasão Che Guevara, quando passamos de carro, protegidos, com ar condicionado ligado e perceber. E o lixo, como troféu, como cenário, elemento pictórico e aromático. Por absoluta falta de Educação, Cultura, Saúde e Saneamento, reinventa-se tudo, sob o ponto de vista da sobrevivência. A lei do mais forte. A esperteza. E jogam lixo sobre lixo. E reciclam o lixo. Aquilo que foi da classe média é reutilizado. Um plástico que foi parte de balão de propaganda, ainda com as marcas poderosas, agora não passa de divisória de barraco/tenda, ou telhado, cobertura. Não é necessário tangenciar nada. Basta estar na principal avenida da cidade. Em frente à entrada de pacientes do prédio do Inss, bicicletas que vendem salgado mais suco, o que chamam “completo”, por 1 real, estacionam e transformam o espaço em corredor polonês para o transeunte, bem como barracas de mingau, doces e churrasquinho, obtido na hora da “viração” da feira, quando pegam o que sobrou e vendem para desesperados atraídos pelo cheiro, não interessa a hora. Pois bem, as bicicletas levam guarda sol, todos recolhidos em lixo, com marcas poderosas como Credicard, Yamada, sei lá, qualquer coisa reciclada, agora com outra destinação. Olhe para as barracas que ocupam majestosamente toda a extensão da Presidente Vargas. Os engraxates. O imperador e sua pantera, que moram na calçada em frente ao Bern e lá ficam, olhando moças e rapazes que interpelam passantes para conhecer o “Vila Saudável”, ou algo assim, que deve ser plano de saúde, sei lá. Cheiro de lixo. Cor de lixo. Rostos esfomeados, desesperados por uma saída, adaptando, reciclando, recriando. Em frente ao muro do terreno do Basa, ocupando toda a calçada, um possível marceneiro dá um trato em um carro/barraca, com rodas de rolimã. O objeto, feito por entulhos, lixo, verdadeiro escombro, voltará ao seu posto em alguns minutos. No final da tarde, vários jovens os levarão para dormir em depósitos infectos por trás da avenida. Não há mais ordenamento algum. A situação é trágica, porque se os comerciantes legalmente instalados resolvessem fechar suas lojas. Se os ônibus (todos, passando impunemente pela avenida), todo esse comércio saísse dali, toda essa turba se mudaria também, iria atrás, pois vive, desculpem a imagem, como rêmoras dessa classe média a quem agride, rouba, estupra, despreza e ao mesmo tempo se nutre. Vivemos em uma cidade em escombros. A cada dia mais pessoas pobres chegam. Mais carros novos e importados. O que fazer se é também nossa culpa? Sim, pois tivemos Educação, Saúde, Saneamento, Cultura e no momento de influir, de usar de nossa força persuasiva, seja em que sentido for, nos enojamos do processo político e permitimos que ladrões, espertalhões, oportunistas se apossassem do poder. Nas eleições, ficamos a jogar joguinhos infames, de Remo e Paysandu, polarizando questões que são de todos, para não dizer o pior que é chafurdar na lama, deixar de lado os escrúpulos e enriquecer gostosamente. E quando algum de nós é assassinado nos comovemos, nos revoltamos, fazemos passeatas e retornamos à nossa rotina. Precisamos de alguma atitude. Não sei bem como, porque queremos democracia, queremos o melhor, o justo, para todos. Será impossível? Não queremos uma ditadura, nem um Capitão Nascimento para dar porrada em todo mundo. Mas se queremos democracia, alguém precisa ir à luta, ser eleito e se eleito, driblar a corja política para realizar algo. Você topa? A fila de espertalhões não pára de aumentar. E a dos justos? Ou prefere continuar encastelado em seu prédio de 30 andares, onde o cheiro do lixo não chegue? Que situação!
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  • Postado em 19:08:54

25.09.07

De um tudo

DE UM TUDO
Estava dirigindo, fim de tarde, pensando no trabalho, me livrando de maus motoristas, ciclistas na contramão, pedestres desafiadores, buracos e de repente começa a tocar um cd contendo a gravação de um show histórico de Vinicius de Morais, Miucha, Tom Jobim e Toquinho, no Canecão, Rio de Janeiro. Foi quando me dei conta do belo final de tarde que fazia. “Passar a tarde em Itapoã.. um velho calção de banho, um dia pra vadiar”, e eu já estava com sorriso no rosto, mudando o astral. E vem Tom Jobim e “Rua Nascimento e Silva 107, você ensinando pra Elizeth as canções de Canção do Amor Demais”. Aí os olhos ficam marejados e tudo é bonito. E o sacana ainda vem com “Rua Nascimento e Silva 107, eu saio correndo do pivete, tentando alcançar o elevador”. Penso que nos falta, hoje, música popular com essa intensidade, essa onda de sentimento, bom humor, felicidade, poesia, bem viver, que enche o coração de felicidade. Aí vem Miúcha e faz “A gente vai levando, a gente vai levando”, a típica música feita em mesa de bar, tempo a perder, cada um inventando versos, dia pra vadiar. Não sou da geração bossanovista. Cresci ouvindo os tropicalistas, e passei a acompanhar principalmente Caetano. Mas à medida que o tempo foi passando, Jobim and friends foram me comprando e hoje sou grande colecionador. Nossa música foi ficando reta, direta, na contramão do nosso coração sentimental. A televisão com sua tradução seca da língua inglesa e os punks, que fizeram com que nossos roqueiros trouxessem outras imagens poéticas, outras construções, empobreceram um tanto nossa expressão. Não há como comparar Chico Buarque e Renato Russo. São diferentes. Pontos de vista. Jeito de dizer. Vocabulário, inclusive de cenas. Enfim, me encheu de astral. Mas no caminho, pensei na incompetência dos nossos gestores municipais, estaduais, nacionais. Seu despreparo técnico, sabidos que são para política. Incompetência que se espalha em todos os níveis, onde um ginecologista assume uma Secretaria de Obras, um arquiteto vai para a Saúde e pior, lá chegando, não chamam técnicos competentes e sim sua turma para dividir o butim. Penso, por exemplo, no dia em que houver um break no trânsito. Me explico. A cada dia, entram na cidade uns dez carros novos? Talvez mais, ou menos. A cada dia, saem de circulação uns três? Então, grosso modo, são sete por dia, usando as mesmas vias, tentando estacionar, atravancando o centro da cidade. O que fazer? De um lado, resolver o transporte público. Mas disso, só rindo, de desespero. É metrô de superfície? São terminais interligados? Por outro, quais são as novas vias, as novas maneiras de escoar? O que os técnicos propõe? E quando lembro da nossa rotatória, que na verdade é um xis, rio novamente. Rio, mas não tenho de que rir. A situação é péssima e piora diariamente. Onde vamos parar? No break? Passava pela Doca, nesse boom de construção civil que vivemos, sem que se saiba realmente quem são essas pessoas que compram todos os apartamentos, ainda na planta. Me pergunto a situação do solo, de má qualidade, no entorno da Doca, fazendo com que a fundação cave mais fundo, até encontrar a nega, encarecendo tudo. Todo mundo cava, todo mundo ergue monstros de concreto, fazendo pressão sobre o solo. Para onde vai essa terra comprimida? Pior, a região está preparada para receber o que será produzido em termos de esgoto? É muito xixi e cocô junto! É tudo ao Deus dará. E as licenças para a construção de arranha céus à beira mar? Ou beira rio, se quiserem. Pois é, só ouvindo Vinicius e Jobim..

O INFERNO DE TODOS NÓS
Agora que o Clube do Remo está muito próximo de ser rebaixado pela segunda vez à Terceira Divisão, começam nos jornais e programas esportivos no rádio e televisão, a analisar a estrutura do futebol paraense. Demorou tempo demais. Não sou dono da verdade, mas malhei em ferro frio sobre o assunto, até me desligar da área. Já contei, mas repito, rapidamente, que escrevia sobre música em A Província do Pará. Quando meu pai faleceu, me pediram para assumir sua coluna esportiva. De lá, passei à televisão, na Mais Tv, formando em uma equipe maravilhosa, comandada pelo saudoso Paulo Cecim. Mas não havia tempo para tantas atividades e foi preciso escolher. Perdeu (ou ganhou) o futebol. Mas é que não é possível ler, assistir, perceber a pujança do futebol no mundo inteiro, em termos financeiros, e não cobrar em nossa realidade, a adoção dos mesmos princípios, até mesmo pela globalização. O mal é nacional, diga-se, mas já há vários clubes com nova mentalidade e resultados para mostrar.
O futebol mexe com muito dinheiro, a maioria sem recibo. Sem origem. Aí, tal como na política, correm logo os ladrões, espertalhões, golpistas e tomam conta do negócio. Os bons, saem correndo. O mundo mudou. O papel dos clubes, também. Hoje, o Clube do Remo é ao mesmo tempo um clube com menos de mil associados pagando, comandado por um Conselho Deliberativo e o Presidente. É também uma empresa que emprega em diferentes modalidades de relação um grupo de profissionais com salários médios de dez mil reais (somas altas em qualquer mercado), arrecadação, duas vezes por semana, em tese, de vultosas quantias através de rendas. E é a soma de onze atletas, vestindo uma camisa azul marinho, paixão de uma multidão. Não há respostas. As pessoas boas, com sua profissão definida, horários tomados, responsabilidades, se afastam cientes de sua falta de tempo e técnica para assumir o comando de tudo. Ao contrário, os ladrões, espertalhões, golpistas, esses correm, oferecem-se, parecem ideais, cheios de promessas e são eleitos. O resultado já se sabe.
E qual a razão do título, esse negócio de inferno? Falo de meus colegas jornalistas. Temos uma das imprensas esportivas mais atuantes do país. Nossos equipamentos são modernos. Nosso pessoal é capaz, competente. Temos uma população disposta a ouvir, assistir ou ler qualquer gemido relativo ao esporte. E no entanto, durante todo esse tempo, fizemos de conta que esse tsunami não estava chegando. A água já começava a pingar e ainda negávamos tudo. Nos portávamos como ingênuos, olhando apenas para o campo, analisando taticamente os jogos. Estou me atendo apenas ao que é mais importante. Agora, estamos com a água na testa. Quantos companheiros serão despedidos? Ou nos especializaremos em transmissões intermunicipais? Continuaremos transmitindo o campeonato carioca, paulista, direto do Rio e São Paulo, pela falta de futebol em nosso Estado? Quando o Remo caiu a primeira vez, escrevi que duvidava que retornasse. Queimei a língua. Eu achava que pela falta de competência, dinheiro, vontade, tudo, nunca mais retornaria. O Remo deu a volta por cima. Os bicolores riam da desgraça do rival. Caíram. Os azulinos riram. Agora estão próximos. Temos torcida de Primeira Divisão, dirigentes de Quinta. Nossa imprensa é muito boa, mas pisou na bola. Somos sócios do negócio futebol. A cada semana, ignorando o tsunami, levamos multidões aos estádios e temos presos à nossa transmissão, milhões. Sim, milhões. Quando precisamos transmitir de Breu Branco, ficou feia a coisa. O que fazer agora? Chamemos, na pressão, os clubes. Discutamos seriamente, profissionalmente a questão. Que o clubismo fique de fora. Remo e Paysandu são siameses embora vivam querendo se matar. Burros. As duas equipes somente são rivais dentro de campo, com juiz e as regras do futebol. Fora, são sócias. Será que continuarão, burramente seguindo para sua extinção, cobertas de dívidas impagáveis? Mais uma vez, que elite a nossa, hein?
Talvez agora, com um já afogado e o outro se afogando, resolvam conversar e resolver suas questões. Futebol é coisa séria. Negócio de muito dinheiro. Ponham para fora seus marginais. Formem boards e contratem jovens profissionais, com técnicas universitárias de gerência. Refaçam a história. Parem de querer aparecer na imprensa. O board analisa resultados e define objetivos. Enfim. O inferno.
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  • Postado em 21:50:49

18.09.07

Meus amigos são baratos

DISNEY ZONA – TREM FANTASMA - MEUS AMIGOS SÃO BARATOS 2

Transito pela Presidente Vargas desde que me entendo. Mesmo quando morei em outro bairro, por força do trabalho em rádio, estive sempre no entorno do edifício Palácio do Rádio. Agora, moro no coração desta avenida hoje dilacerada, com veias abertas, apodrecendo, se degradando sem que ninguém de direito faça algo. Mas é preciso procurar pérolas mesmo nos chiqueiros. Há alguns anos atrás escrevi um artigo encomendado por um blog paulista, a respeito de amigos que tenho, gente de rua, justamente neste entorno do meu trabalho e que pega, hoje, o local onde também fica minha residência. Mais ainda, pega o Espaço Cuíra. Aí está completo. Naquela época, me reportei ao Baldo, que toma conta de carros somente à tardinha, na Praça da República, em frente à Banca do Alvino. Ao Louro, engraxate da esquina da Ó de Almeida, já falecido. Ao Imperador, com sua esposa Pantera. Ao gringo, uruguaio que um dia desses vi vagando pela João Alfredo. Até escrevi uma peça, chamada “Quando a sorte te solta um cisne na noite”, que acaba de receber o Premio Myriam Muniz, da Funarte e será montada brevemente pelo Cuíra. Faltaram alguns. Veio o Espaço Cuíra e agora, ao invés de apenas olhar do alto, passei a conviver com a parte detrás da Presidente Vargas, a Primeiro de Março e seus personagens maravilhosos. Felizmente temos ótima convivência. Eles nos protegem, nós ajudamos. A Primeiro de Março é o quintal da Presidente Vargas e se esta é uma avenida em decomposição, imaginem seu quintal, onde todos os prédios jogam lixo, figuras absurdas transitam, vivem, comerciam, traficam, enfim. Novamente, procuremos pérolas no chiqueiro. Foi em uma noite quando Kiko, para nós T. Rex, estava descolando algum como “olhador” de carro, durante uma sessão de “Laquê”, no Espaço Cuíra, que tive a idéia. Parece cruel. É cruel e assim mesmo, não há como não usar humor. O Kiko é um rapaz que tem uma série de deficiências. Mental, certamente, embora não saiba dizer quanto, tampouco o quanto piorou com a ingestão contínua de cola de sapateiro e derivados. Física, porque é como ter os tendões dos braços e das pernas atrofiados, com os braços curtos demais e as pernas também, em comparação com os pés. Isso, mais o formato de sua cabeça, resultou no apelido de T. Rex. Vive entre as casas de prostituição da Primeiro de Março. Quando bebe ou cheira, dorme nas calçadas. Quando se aborrece, levanta a voz. Todos, ali, falam muito alto. Como vivem ao ar livre e mesmo as prostitutas ficam todas à porta, o mundo é sua casa. E assim, falam alto para todo esse mundo ouvir. Talvez estejam é gritando por socorro, sem parar. Acho que é isso. Pois é, o T. Rex estava fazendo sinais, com seus bracinhos, ajudando uma moça a manobrar seu carro. Noto que a manobra cessou, embora o carro ainda não esteja estacionado corretamente. Quando vejo, percebo a motorista, boca aberta, num misto de medo e curiosidade, encarando T Rex e seus sinais. Fui até lá e com gestos, dei-lhe a segurança que precisava. É um pária. Vive do que consegue amealhar. Com sua deficiência, não consegue sequer assaltar, tomar o que precisa. Tem equilíbrio frágil. Precisa de ajuda. De quem? Já o convidamos a tomar um banho, vestir-se com roupas limpas e assistir ao espetáculo, mas não creio que ele tenha sujeição para isso. Grande figura.
Temos a Muda. Prostituta muda? Sim. Não deve ter mais do que 30 anos, branca, bonita, sim senhor, bonita. É violentamente belo vê-la oferecer seus préstimos, com gestos. Sexo oral, vaginal, anal e o preço. Uma vez estava fora de seu ponto. Na esquina da Assis de Vasconcelos com a Osvaldo Cruz. Passei de carro e ela chamou, sem me reconhecer. De volta, acenei apenas. Dois dias depois veio desculpar-se. Parece tão cuidadosa, boa pessoa. Quando se aproximam cheirando cola, fumando maconha ou coisa pior, afasta-se revoltada. Imagino quando faz sexo, como é a comunicação. Bem, talvez nem haja comunicação, não é?
Colega dela, Célia, conheço mais de vista. Tem amizade com a turma do Cuíra. Mora bem ao lado, pela Riachuelo. Quem visitou diz que sua casa, seu quarto, são um mimo de arrumação cafona, mas decente. As cortininhas, tapetinhos, fronhas de travesseiro. Ela própria, morena farta, gorda, digamos, anda cheia de dengo, lentamente, gordamente, com sua cabeleira de dreadlocks e clientes fixos, geralmente senhores de alguma idade.
Temos a Pantera, já mencionada no outro artigo, por conta de seu Imperador. Também escrevi um conto sobre o casal, que deve sair no “Um sol para cada um”, meu próximo livro. Era prostituta da área, mas dizem, foi o excesso de drogas que a levou à insanidade. Mora na calçada, com o Imperador, mas sai circulando, falando sozinha, sempre se defendendo de alguma acusação, mancando de um ferimento na palma de um dos pés. De repente, tira a roupa. Anda nua, magricela, esfomeada, os seios duas muxibas, coitadinha, afrontando o mundo. Pede dinheiro e ameaça tirar a roupa se houver negativa. Ninguém faz nada. Devia ser retirada da rua. Ter um lugar para morar. Receber tratamento. Seu desfile quase que diário é mais uma das chagas da Presidente Vargas.
Outro amigo é Marcos, vendedor de incenso. Foi um dos primeiros a chegar ao Espaço Cuíra. Inscreveu-se e foi figurante de “Andar às Vozes”, filme de Eliana Caffé que deverá ser mostrado ano que vem. Diz que já esteve em diversos outros filmes e comerciais de televisão. Acha que o sucesso no Cuíra vai levá-lo até a Globo. Tem alguma deficiência mental, talvez até por falta de alimentação. Não gosta de banhos, talvez porque precise pagar para isso e o dinheiro é escasso. Está no elenco de “Laquê”. É histriônico de natureza. Tem graça, humor e timing. Problemas seríssimos nos dentes. Que dentes? A Associação Brasileira de Odontologia foi parceira e ajudou a galera a dar uma geral nos sorrisos. O caso dele é mais sério. Tratamento pesado, embora gratuito. Nem sei como estão as coisas. Medo de câncer. Alguns dias em que esteve em “Laquê”, dormiu na rua, por conta do horário rígido de fechamento de portas na pensão onde estava dormindo.
E o Júnior? É um psicopata. A partir do que conta, vivia com a mãe até esta falecer. Sem ninguém no mundo, mora na rua. Fala sozinho. Auto flagela-se com murros fortes, no peito. Às vezes discute com outros e é severamente agredido. Come o que dão. Veste o que recebe e já troca por qualquer coisa, de pasta a cola. É de natureza boa. Parece incapaz de agressão, mas sua doença não recomenda tanta aproximação, além de lanches e peças de roupas.
Com um leve retardo, penso, temos Vitória, que está no elenco de “Laquê”. Prostituta, mente livre, sem hora nem lugar para nada, diz para quem quiser ouvir que é compositora e cantora de brega. Que tem repertório para um disco inteiro e que ainda fará sucesso. Uma noite, diante de Nilson Chaves, despejou umas quatro ou cinco de suas canções para que avaliasse. A turma é grande, mas fico por aqui. O artigo é porque pensei como essas personagens ficariam no antigo Trem Fantasma do Parque de Nazaré. Carrinhos toscos, em trilhos, o bastante para assustar as crianças. Muitas vezes fui o trajeto todo de olhos fechados, abrindo à saída e comentando minha coragem em ir. Lembrei do carrinho passando e cada personagem acenando. É uma lembrança carinhosa, suscitando imagem cruel, sei, mas bolas, um pouco de humor também é bom. Tenho primos, hoje morando em Fortaleza, que moravam, quando garotos, nas cercanias da Basílica. Quando entravam na Casa dos Horrores, na Mulher Macaco ou Trem Fantasma, era uma gritaria. Os monstros gritavam apavorados. Os sacanas entravam com bombinhas ou fósforos para tocar fogo nas fantasias. E eu com medo!
Tenho a idéia de uma foto com toda essa turma, para a capa desse meu livro de contos. A Disney Zona... Os personagens em miniatura.. De alguma maneira eles são lindos, verdadeiros, profundamente humanos e amigos deste mundo, mundão largo, onde vivemos. Meus amigos são baratos!

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17.09.07

Humilhação nos ares

HUMILHAÇÃO NOS ARES
Sou preguiçoso. Devia ter escrito sobre isso há muito. A humilhação que os passageiros de avião sofrem, no momento, aqui no Brasil. Não voei nas asas da Panair, mas nas da Paraense, Cruzeiro do Sul, Taba, Transbrasil e Vasp, sim. Voar era algo especial. O marketing das empresas dizia isso. Todos com belas roupas. Atendimento perfeito. E para fora do Brasil, os funcionários da Varig, esplendidos, educados, atenciosos, tudo classe A. Veio a Gol e seus modos de transporte rodoviário. Ninguém ligou. Melhores eram os preços, mais baixos. Fazíamos piadas com as barras de cereal. A primeira vez em que percebi algo realmente diferente foi quando, retornando do Rio de Janeiro, pela Tam, estávamos, passageiros, fazendo escala em Brasília, sem necessitar trocar de avião, até que o comandante nos solicitou fazê-lo. Nos corredores do aeroporto, pouca informação, até que um dos passageiros, presidente da confederação de natação, senhor de idade, levantou a voz. Disseram que nosso avião fora requisitado para Salvador. E que, face haver poucos passageiros, aguardássemos outro vôo, dentro de 60 minutos, onde seríamos colocados. Enquanto isso, pagariam jantar no restaurante do aeroporto. Percebi dois comportamentos entre meus companheiros. Alguns, como eu, indignados e impotentes. Outros, resignados, quase respeitando uma autoridade maior, no caso, a companhia, por seu destino. Indignados e impotentes. Retirados de nossos ambientes, onde por todos os motivos somos alguém, ali, no corredor daquele aeroporto, somos ignorados, desrespeitados, humilhados, por não ter o comando do nosso destino imediato, claro, à parte comprar outro bilhete, sair e pegar um carro, navio, não ir para nenhum outro lugar, enfim. Um domingo à noite?
Estava em São Paulo quando caiu o avião em Congonhas. Ia embarcar no dia seguinte para o Rio de Janeiro. Na confusão, peguei um ônibus. Quando a rodomoça me estendeu um saquinho contendo a barra de cereal, entendi tudo. E quando retornei do Rio para Belém, vem uma voz e diz que houve reposicionamento da aeronave e que precisamos trocar de gate. Um ônibus nos leva até a pista, apertados feito sardinha, onde descemos sob clima frio e chuvisco. Reclamar como?
Novamente em Brasília, vindo de São Paulo. Avião lotado. O comandante pede desculpas e diz que houve um erro. O avião recebeu muito mais querosene do que era necessário. Para ir até a Venezuela, disse o comandante, muito educado. Precisariam retirar. Uma hora de espera, dentro. Levantam-se alguns passageiros para reclamar. Um senhor, cabeça branca, acho que um pesquisador do Museu Goeldi, fala mais alto. Não adianta. Enfim, tudo certo. Ligam os motores, anda alguns metros e pára. O comandante avisa que infelizmente, os spoilers das asas não estão funcionando. Chamou a equipe técnica. Passageiros vão até a frente reclamar. Pedem, ao menos, para descer. Um idiota do atendimento local, aborrecido, responde que pode descer quem quiser, mas no momento em que o conserto for feito, fecha a porta e vai embora. Felizmente o piloto interveio. Descemos. O avião foi trocado. Voltamos. Viagem de sete horas de duração. E apertados. Não é possível ler um jornal. Abrir um notebook. Lanchar.
O que é mais absurdo não é esse conjunto de ações das companhias que monopolizam o setor, mas a aceitação pelas autoridades. O que é mais intrigante é que as companhias não percebam o marketing negativo que fazem, a cada instante em que tratam mal seu público. Em outros países, qualquer uma dessas agressões diárias e freqüentes acarretaria em pedidos de desculpas, perdão, ressarcimento e principalmente ações derrubando com a imagem institucional da companhia. Aqui, essas companhias preferem o marketing negativo a ter pequenos prejuízos com mimos a seus passageiros. Mimos? Desculpem. São direitos. Em um país normal, ninguém precisa ser “alguém” para ser respeitado. Basta ser cidadão, cliente, com passagem paga para ter respeito e direitos. Em tempo, já fiz a ponte aérea SP/Rio pela Varig. Atendimento nota dez.
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  • Postado em 15:32:26

Tropa de Elite

TROPA DE ELITE
Pois é, queimei a língua. Já havia postado aqui um comentário a respeito de DVDs piratas. Que havia comprado apenas um em toda a vida e dei a sorte ou azar da cópia ser péssima. Que ao passar na Presidente Vargas e perceber todos aqueles filmes, ali, jogados no chão, a preços vis, sabia que ao lado de um crime de ordem econômica contra a indústria cinematográfica, era sobretudo um crime contra a Cultura. Vejo a Cultura, lá, no chão, jogada. Quanto ela vale? Três reais?
Estava em São Paulo, no Stand Center, Avenida Paulista, antro de coreanos e artigos piratas, permanentemente lotado. Não resisti. Comprei Tropa de Elite, o filme de João Padilha, baseado em livro com o mesmo título, que promete ser a sensação do cinema nacional de agora em diante. É que houve um vazamento de uma cópia e os piratas se aproveitaram. Os produtores precisaram correr e lançar o filme, para não perder mais. Pena. Vejo espertalhões rindo, contando dinheiro, e trabalhadores da área cultural passando fome. Mas a verdade é que não resisti. Também seria um exagero. Todo mundo está assistindo. Mais importante é sentir, verdadeiramente o ato do que fingir. Tropa de Elite é excelente. Fátima Toledo foi a preparadora de elenco. Dá para perceber. Wagner Moura brilha exuberantemente. Na medida. Você acredita no que assiste. Li o livro. Agora, o filme. É o outro lado da moeda. Cidade de Deus, por exemplo, conta a versão da galera da pesada. Aquele documentário do rapper, também. Agora, a versão da Polícia, com tudo de bom e mau. Os bem nascidos, que cheios de boas intenções, querem instalar Ongs na favela, mas não deixam de fumar seu baseadinho no final de semana. O comandante, no meio do tiroteio, recebendo telefonema da mulher que vai para o hospital, dar à luz. Os planos, os cortes, o ritmo, os atores. Wagner Moura. Muito bom.
O pior é dizer que a cópia é ótima. Paguei 10 reais. Mais do que uma locação na Fox Vídeo, de onde sou freguês semanal. Mas foi o ineditismo. A circunstância. Queimei a língua.
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