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Instantâneos da vida

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Terra Blog

Arquivo de: Outubro 2007

31.10.07

fórmula 1

Fórmula 1
Mamãe me botou pra fora de casa logo cedo. Ela estava puta porque o velho não dormiu em casa. Fui lá pro playground e fiquei ali, sem fazer nada. Estava no balouço quando o Fresquinho apareceu. O nome dele é Fernando César. A mãe, uma perua, vem chamar ele dizendo “Fernando César, está na hora de você jantar”. A galera faz graça. E é Fresquinho porque ele é rico e gosta de se amostrar. Tem sempre os melhores brinquedos, os tênis mais novos. Não chamo de Fresquinho porque ele é bem maior do que eu. Veio me mostrar um carro tipo fórmula 1, por controle remoto. Viu que eu fiquei louco pelo brinquedo. Ficava mexendo de lá pra cá, daqui pra lá. E quando o carro engatava nos obstáculos, me mandava mexer pra ele continuar a brincar. Eu ia. Pedi pra dar uma voltinha. Disse não. Podia dar defeito. Convidei ele pra ir dirigir o carrinho lá na área do poço. Tem mais espaço. Fomos. Fiquei sentado num canto vendo o carrinho ir de lá para cá. E ajeitando quando capotava, quando ficava preso nos obstáculos. Porra, o carrinho caiu dentro do buraco. Devia ser obra que deixaram pra terminar segunda feira. Ele me mandou olhar. Eu disse que ele devia olhar, isso sim. Era bem fundo. Vai ver era um poço novo. Ele ficou bem na beira. Empurrei. Ele caiu. Acho que se machucou. Ficou gemendo. Pedindo socorro. Achei que iam ouvir. Puxei as tábuas e tampei. Eram pesadas. Até suei.
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  • Postado em 18:13:35

26.10.07

rino

MORA COMIGO UM RINOCERONTE
Não sei se conhecem “Os dragões não conhecem o paraíso”, de Caio Fernando Abreu. Mas é que agora, tal como ele diz “mora comigo um dragão”, também pude dizer “mora comigo um rinoceronte”. Sim, primeiro decidi chamá-lo por “Rino”. Depois, simplesmente por “Ri”. Foi uma manhã em que acordei meio fora de hora, e me deparei com aquele animal gigantesco, me olhando com aqueles olhos melancólicos. Lógico, levei um grande susto. Pensei que era um pesadelo. Não me perguntem como, mas nos comunicamos. Ainda não sei se realmente falo com ele e o escuto. Ou se é telepatia, coisa que nunca imaginei poder fazer. Ele também não sabia o que estava fazendo ali. E não havia como sair. Era grande demais para passar pela porta. Pelo corredor. E ir embora para onde? Deveria chamar os bombeiros? O Museu Emílio Goeldi? Ele me acalmou. Devíamos lidar com a situação. Era necessário dar-lhe um banho. Arredei a cama, busquei um balde, gastei duas barras de sabão. Precisava ir trabalhar. Antes, deixei leite em um balde, para ele tomar. Depois, pensaria no que fazer. Claro que não disse nada a ninguém. Poderiam me encaminhar a um psiquiatra, no mínimo. Quando voltei, ele disse que estava com câimbras. Era difícil ficar naquela posição, meio deitado, de lado, entre o guarda roupa e a cama, o dia inteiro. Perguntei o que comia. Qualquer coisa. Então lhe fiz uns sanduíches. E agora? Havia a faxineira que trabalhava às quintas. E estávamos na quarta. Ele não parecia ter idéia da estranheza daquilo tudo. De ser algo estranho, bizarro, ali. Queixou-se do calor. Liguei o ar condicionado e ele suspirou, feliz. Levei a tv para lá e gostou, embora parecesse enfadado com tantos humanos na tela. Sei. Conversamos, e chegamos à conclusão que era necessário emagrecer. Precisava passar pela porta, tomar banho, andar pelo apartamento. No fundo, eu manobrava para, um dia, ver-me livre dele. Optamos por uma alimentação light, leite desnatado, nada de massas e muita salada. Assim, em poucos dias, já se movimentava melhor, até que saiu do quarto e embora um pouco espremido, atravessou o corredor até a sala. Ida, a faxineira, se assustou no início, mas depois apaixonou-se. Preparei seu banheiro e seu chuveiro particular, desses com vários jatos de ducha. Imagino que no verão deva sentir mais calor que o normal. Mas leva vida boa. Quando saio para trabalhar, já está na sacada, tomando sol, usando óculos escuros Armani, que eram meus, tomando laranjada com adoçante, claro. É um ótimo ouvinte. Conversamos por horas, quer dizer, fora o tempo em que ele está dedicado a assistir o Discovery Channel. É um esnobe, o Ri. Até na internet ele está, com Orkut e blog, onde todos os meus amigos não imaginam ser um rinoceronte. Ri não sai de casa. Não sei se o velho elevador agüentaria seu peso e ele também tem muito medo do transito. Acha que ninguém respeita a faixa de pedestres e se aborrece com os milhares de ciclistas na contramão. O jeito foi comprar uma esteira, do maior tamanho, para ele se exercitar. É meu grande amigo. Aquele corpo gigantesco e seu casco duro, sua estética, como um animal pré histórico que permaneceu na terra, após todos os seus semelhantes desaparecerem, esconde, na verdade, um cérebro ágil, moleque, ladino, inteligente. E seus olhos melancólicos tentam disfarçar a vontade de ser bípede, leve, livre, comum, talvez. E eu lhe digo que talvez essa seja sua grande qualidade. Não ser comum. E exigir, dos amigos, a descoberta de tudo de bom que ele tem em sua alma. Ter a coragem de furar aquela casca grossa e encontrar alguém tão receptivo. Até hoje não temos explicação para ter surgido, de repente, no meu quarto de dormir, em uma manhã de uma quarta feira qualquer. E nem ele sabe explicar de onde veio. Como se uma maquina o tivesse sugado de seu habitat e o despejado na selva de concreto.
Enfim, um dia ele sumiu. Tal como tinha vindo. Acordei e estranhei o silencio na casa. Procurei por todos os quartos e nada. Pensei em um acidente, que havia desmoronado a sacada. Não. Sumiu. Talvez tenha voltado para onde veio. Ou foi surgir surpreendentemente na casa de algum outro solitário, como eu. Talvez ele fosse isso. Um preenchimento. Com seu jeito pré histórico, olhos melancólicos, seu casco grosso. Mas ágil, inteligente, compreensivo e sobretudo, bom ouvinte. O vazio que havia antes, não voltou. Agora tenho mais facilidade em me relacionar com outras pessoas e procuro namoradas com algo mais a oferecer, como amizade, companhia, cultura e inteligência. E também não me isolo, não me deixo como um casco grosso, impossível de ser alcançado. Quando sinto que a solidão pode chegar e se instalar, lembro do Ri, tomo um banho, visto uma roupa e vou à procura de amigos. Penso que está, talvez, junto com o dragão do Caio Fernando Abreu. Talvez Caio esteja com eles. Sei que, onde quer que ele esteja, pensa em mim. E eu nele.
Edyr Augusto
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  • Postado em 18:28:31

o clube do fracasso

O CLUBE DO FRACASSO
O famoso antropólogo Roberto DaMatta acaba de publicar em jornais do Rio e São Paulo um corajoso artigo onde afirma que “a inveja e não o patriotismo é o sentimento básico de nossa vida coletiva”. Considera ser tão forte que aqui, “temos” e não “sentimos” inveja. Ódio e desgosto pelo sucesso alheio. Aquele sujeito bem sucedido, bonito, que tem carro lindo, roupas chiques, aparece nos jornais e ainda é talentoso, veja só! O que ele tem que não tenho? Ele está ocupando o lugar que deveria ser meu. Com o meu carro, minhas roupas, meu sucesso, ou, pelo menos, o que deveria ser meu, isto é, tudo. E então acho que ele roubou o dinheiro, o carro, paga para aparecer nos jornais e é muito feio. DaMatta também acredita que gostamos de ser invejados, seja pelo salário, pelo poder, beleza, sucesso, inteligência e até sacanagens, espertezas que cometemos. Acha que, diferentemente de outros países, onde o corrupto rouba e some no mundo, para consumir o produto do roubo, nós, brasileiros, vamos mostrar-nos a todos, para que nos vejam e nos invejem como o fdp esperto que rouba e ninguém descobre. Rimos nas colunas sociais o riso dos justos, dos bem sucedidos, escarnecemos também dos idiotas que não escolheram o mesmo caminho e não desfrutam somente das benesses, mas principalmente da inveja que sentem. Concordo. Há muito que identifico o sentimento na sociedade de Belém. É o que chamo de Clube do Fracasso. Ai de quem se destacar, por qualquer motivo. É atacado, chicoteado, mal visto, ou pior, absolutamente ignorado. Os jornais não falam. Eventos não o convidam, enfim. Há como que um clube do fracasso, uma rede que liga a todos, impedindo qualquer individualização, como daquele fdp que escreveu um livro, gravou um disco, ou foi nomeado para o cargo tal. DaMatta pergunta como não sentir inveja do sucesso alheio, se estamos convencidos de que o êxito é um ato de traição a um pertencer coletivo conformado e obediente? Então o sucesso é um sinal de pilhagem de um bem coletivo? E há também, como não podia deixar de ser, o corrupto colunável, a desfilar impávido enquanto todos rosnam em sua direção, invejando sua condição de corrupto bem sucedido.
Já sofri, na turma do Teatro, muito preconceito. Há em Belém uma situação cruel que faz com que pessoas que nasceram com talento não tenham dinheiro para acesso a livros, espetáculos, filmes, viagens, Cultura. Então, olhavam para mim, com meu sobrenome, e imaginavam-me rico, poderoso, com direito a ter tudo o que lhes era negado. Então não era possível aceitar que, mesmo que tudo isso fosse verdade, eu tivesse o mesmo talento e fosse capaz de escrever peças teatrais. É uma sensação desagradável, porque a Educação e Cultura que se tem propiciam perceber toda essa estrutura de pensamento errado, mau e que machuca. Sabendo, suavizava a dor. Não creio que a situação tenha melhorado. Piorou, e muito, na medida do fundo do fundo do fundo do nosso abismo em Educação e Cultura. Usei a palavra preconceito, lá atrás, mas seria inveja? E aquele que diz que os outros sentem inveja, e não se sente bem, o que é? Porque aquele que sabe dessa inveja, mas dela não se queixa, por lhe fazer bem, é feliz. É feliz? Conceitue esse feliz. Outras pessoas, em outras mídias, que agora não lembram, dizem não existir inveja positiva, que seria quando vemos no outro algo que queremos ser ou ter, mas sem negatividade, apenas ambicionando, um dia, também poder ter ou comprar. A inveja negativa seria não querer permitir que o outro tenha, ou compre, ou use, por não considerá-lo à altura, sobretudo se comparado a si próprio. E se achamos que os outros nos têm inveja, apenas por soberba pessoal, porque isso não ocorre? O que somos? Metidos a besta, como dizem? Se nos consideramos mais do que os outros nos consideram. Quem emitirá esse juízo de valor? Quem será o fiel da balança? Enfim, é uma boa discussão. Muito corajosa a posição de Roberto DaMatta.
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  • Postado em 18:24:15

quanto vales, cultura

QUANTO VALES, CULTURA?
Sim, sou repetitivo. Mas é que me fere o peito passar na Presidente Vargas e quase pisar em dvds piratas, oferecidos a dois reais, se tanto. Quanto vales, Cultura? E o trabalho dos profissionais, sem juízo de valor sobre as obras. Artistas, técnicos, diretores, ali, jogado no chão. E agora a briga para que todos os filmes sejam dublados, porque já não conseguimos ler as legendas. Isso não está acontecendo apenas em nossa cidade em escombros. No mundo inteiro, seja a pirataria, seja simplesmente o ato de fazer download de filmes, discos, gratuitamente, está dando um nó na indústria. Sim, podemos acusá-la de tudo, mas do jeito que vamos, onde chegaremos? Está bem, você dirá que músicos, por exemplo, eliminarão a indústria no processo direto com o consumidor. Sim, com os estúdios de hoje, é fácil gravar. Mas e os atores do cinema? Das grandes produções? Como será?
A banda Radiohead tentou um cheque mate nos últimos dias. Trata-se de um grupo de enorme prestígio e vendas no mundo inteiro. Particularmente, não gosto. Até tenho um ressentimento, porque no início de sua carreira, tocava rock de guitarras, muito bom. Quando mudou para teclados, não gostei, sei lá. Mas sim, o Radiohead lançou o disco na web e em seu site, você pode fazer download e pagar o que achar que vale, até mesmo nada. Primeiro acharam que a banda era muito legal em fazer isso. Depois perceberam que se trata de um desafio para a indústria e principalmente para o consumidor. Quanto vale o disco novo do Radiohead? Quanto vale a Cultura? Ficaram os fãs sem saber o que fazer, confrontados com o desafio. Pagam o valor antigo de um cd, o qual reclamavam ser alto? E quanto, menos? Ou nada, mostrando ser insensível, ou ladrão do trabalho dos artistas? Quanto vales, Cultura?
Aqui em Belém do Grão Pará, eu sei que vale muito pouco. Cada vez menos. O Grupo Cuíra, com o qual trabalho, está apresentando em seu espaço, na esquina da Primeiro de Março com Riachuelo, seu espetáculo de maior sucesso Convite de Casamento. Nos jornais, saímos em matérias nos três. Nenhum nos deu a capa. E todos, na capa, por coincidência que me facilita o argumento, puseram a grande cantora Elba Ramalho, que está lançando seu cd/dvd novo, o qual ainda sequer está nas lojas locais. Gosto de Elba. Sei do seu valor. Mas nós, os artistas locais, por qualquer motivo, vamos para dentro do caderno. Ficamos lá, espremidos, no lugar que encontram para nós. Uma vez, uma mocinha da tv, quando eu liguei tentando marcar uma entrevista, disse que nós já havíamos passado lá, anteriormente. Tive de argumentar que ao contrário de uma Elba, Marisa Monte, Roberto Carlos, sei lá, quando chega a segunda feira, acordo em Belém e não em outra cidade. O que fazer? Não fazer? Os cadernos de esportes, mesmo com nossas equipes em gravíssima situação, falimentar, diariamente veiculam fotografias e matérias dos atletas que aqui trabalham. E se fizessem o mesmo que acontece com a Cultura? Na capa, Robinho, Kaká, Ronaldinho e não mais Landu. E quando, por sorte, recebemos a visita de um repórter, é alguém que nunca ouviu falar em seu nome, no do Grupo, pergunta, afinal, o que fazemos e temos a paciência de explicar. Quando vales, Cultura Paraense?
Muita gente já assistiu Convite de Casamento. Muita gente quer ver novamente, ou pela primeira vez. Vai ser bom para conhecer o Teatro Cuíra. Há quem tenha medo do lugar. Bobagem. Há mais segurança que na maioria dos teatros da cidade. Há poltronas. E há Cláudio Barros e Zê Charone, dirigidos por Cacá Carvalho.
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  • Postado em 17:51:30

acende a cidade

Sorrisos Mona Lisa
sugerem, oferecem
dão um clima de sofreguidão
nesta casa do prazer
Um cruzar de pernas,
a gargalhada que rasga no ar
e esses tantos olhos vidrados         
meninos na jaula do leão
Mas quando ligo a luz há espanto
e num canto, se reúnem atônitas,
sorrindo, sorrindo tanto
Afinal de que riem as mulheres?

Beija-me e acende a cidade

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  • Postado em 16:58:21