15.11.07
Desse mato não sai coelho
Estive conhecendo, na véspera do feriado, a Taberna São Matheus, ali na Padre Eutíquio. Quando cheguei, havia algumas mesas. Em minutos, ficou lotada. A casa é boa, mesas e cadeiras razoáveis, decoração de objetos antigos, rádios, capas de vinil, azulejos, instrumentos, enfim. Um músico tocava, claro, com couvert cobrado. Até não era dos piores, embora o volume aos poucos fosse ficando ensurdecedor. O cardápio parece legal, mas a lingüiça de frango que pedi não estava boa. Como sou cocacólatra, me conformei com Pepsi Light, já que o local é mais uma vítima da perversa concorrência, que banca a cerveja de alguma marca, e a partir daí, exclusividade, que se estende aos refrigerantes. Só no Brasil. Só na terra do “te fode”, desculpem. Aí chegou outro cantor, comportando-se como em um show, cantando mal, muito mal. Em seguida, Adriana Cavalcanti, que foi do Batom Carmim, bonita, voz muito boa, com Beto Meirelles e um baterista. Parecia em um palco de show e não tocando para servir de fundo musical para a conversa, no bar. A essa altura, o volume, podem imaginar. Pior, nenhuma qualidade sonora. E vem Adriana, delirantemente aplaudida, com presença de palco, à vontade, e começa a cantar muito mal. O repertório é ruim. Ela está viciada em golpes de voz, recusando-se, pelo excesso, a cantar uma frase sequer como pede, simplesmente, a melodia. Isso acaba com tudo. Se pudesse, diria a ela, menos, Adriana, muito menos. Bonita, voz boa, presença de palco e ela erra no que é mais fácil e básico?
Mas sim, não quero escrever sobre a Taberna e sim sobre seus freqüentadores, a maioria expressiva jovens, muitos em pé, quase todos bebendo, azarando, conversando aos berros. Olho para eles e percebo que nunca irão ao Teatro Cuíra, assistir “Convite de Casamento”. E olha que “convite” é uma super comédia. Talvez até tenham ido assistir aqueles dois humoristas do “Zorra Total”. Talvez. Penso neles como formação e quase desespero. Nossa incompetência, nossas raivinhas, briguinhas paroquiais. É certo que isso serve para todo o país, mas aqui falamos do Pará, de Belém. A nova geração quer o quê? Interessa-se como?
É que assisti em dvd o documentário de Januário Guedes sobre os Anos 80 em Belém. Minha adolescência se passou na década de 70. Na seguinte, como muitos, estava à frente de acontecimentos. Mas vendo o dvd, percebo que são figuras a partir da década de 60 que ainda hoje, em Belém, dão as cartas. Muitas repetem seu mantra, sem se renovar, mas isso é outra conversa. Percebemos que havia um clima de rebeldia, de fazer algo novo, de ser diferente, criativo, no ar. Se a galera dos anos 70 estava à frente, a garotada dos 80 está aí, também, até hoje. E onde está a turma dos anos 90? Fazendo aquela festa do PAC 90, tola? E a partir daí, o que aconteceu? E olha que havia todo um problema político a driblar. Olha que não havia nada em que se apoiar. Talvez seja isso. O desafio de inventar. Os livros chegavam tarde. Discos, também. Internet, computadores, nem pensar. Ouvi alguém dizer e acho bacana pensar que depois dos anos 80, parece que veio toda essa gente e se interpôs entre nós, que antes estávamos juntos. Sei que veio estudo, galera que foi embora, alguns para não voltar. Mas parece que essas pessoas novas ficaram entre nós, e nem elas fizeram nada, nem nós, que talvez ficamos, na platéia, querendo assistir algo deles, que não veio. Será?
Parece besteirada daqueles que dizem “no meu tempo era melhor”. Não sou saudosista. Meu tempo é amanhã. Mas que havia mais atividade, disso não há dúvida. Convivi com jovens atores na montagem de Laquê, pelo Cuíra. O nível de interesse é perto de zero. Têm dificuldade total de decorar texto. Não há contestação com base. Bem, não há contestação. Ninguém parece haver descoberto nada, lido, visto. E é certo que eles todos, com acesso a internet, vão até o passado ver tudo. Mas é apenas um registro, parece não provocar discussão, dúvidas. E neles não há, grosso modo, temperamentos fortes, do contra, espíritos de porco, como diziam.
É uma nova era, sem dúvida, mas será que essa geração, ao contrário da nossa, veio apenas para bater palmas? Para estar na platéia e não no palco? Nós inventávamos do nada. Eles têm tudo na tela. Quando jogam vídeo game, há uma realidade virtual, a partir da qual agem, através dos controles. Está pronta. Construída. Não dá vontade de reconstruir, refazer o mundo à sua maneira?
Não, aquela rapaziada da Taberna não irá ao Teatro. Irá ao Pará Folia, tenho certeza. Confunde Cultura com ir assistir Ivete Sangalo, beber, pular, beijar e voltar pra casa arrasado. Disco de Ouro ganhou Emmerson Nogueira, que esteve entre nós estes dias. Curioso que ele é um reprocessador, um crooner, cantando sucessos de outros. Também não faz nada de novo. Na área da música, a turma dos anos 60 revolucionou, a turma dos anos 70 arrebentou, a dos anos 80, aqui no Brasil, fez o rock explodir e daí em diante, mais nada. Claro, com saudáveis exceções.
E a culpa é toda nossa. Por motivos diversos, deixamos que as rédeas de nosso desenvolvimento, Educação e Cultura, fossem parar nas mãos de cretinos preocupados apenas em fazer negócios para seus grupos. O Pará afundou inteiramente e irá ainda mais. O que virá por aí? Qual o preparo da nova geração? Números, planejamento frio, computadores, tudo isso é repertório dos craques modernos, mas sem uma pitada de talento, Cultura, Educação, nada funcionará. Nada.
Estou preocupado porque o novo governo ainda não disse a que veio. Um ano depois, a Secretaria de Cultura promove uma espécie de fórum de teatro, para saber o que desejamos. Ora, nós é que queremos saber o que eles desejam fazer, doze meses depois, doze salários depois, de estar no cargo. E no entanto, nenhuma grande autoridade compareceu. É preocupante. Enfim, qualquer coisa é melhor que os doze anos passados, nas mãos de um maluco. Depois de tanto tempo, é preciso ter paciência e estamos tendo, mas por favor, desse mato há de sair coelho.

-
criado por edyrap.bel
22:42:48