03.12.07
a porcaria do som
A indústria fonográfica está em pânico. Grandes multinacionais contrataram como presidente, produtores de discos, djs, atiram em todas as direções, querendo encontrar uma saída. Ninguém tem emprego garantido. Mesmo aqui no Brasil, a BMG mudou de nome. Agora, o artista também se entrega à empresa, que dirigirá sua carreira, marcará shows e encontrará como ganhar dinheiro. E é seguro fazer isso, se às vezes basta tocar no lugar e momento certos para fazer sucesso? Djavan, por exemplo, fez sua própria gravadora. Dono do seu destino. Que destino? Se o pior da crise é não saber como ganhar dinheiro, o que atinge até os artistas, o melhor dela é a profusão de músicas e meios de divulgação da música, que nunca esteve tão forte. Os iPods, iVideos, MP3, ringtones, tv digital, enfim, muda a mídia, mas é sempre música. Mas então, será sempre daquele que se dispõe a entregar-se gratuitamente, já que ninguém quer pagar nada? E quem vai pagar o estúdio, os músicos, o próprio artista? Sei lá. É a grande busca. Mais ainda, basta, hoje, com o acesso que temos, construir estúdio em computador, trabalhar com teclados, protools para vocais e lançar seu trabalho para tornar-se uma grande estrela? E se não souber quais os canais de comunicação? Pior, como diz James Murphy, da banda LCD Soundsystem, não é porque adoro futebol e posso comprar uniforme, chuteira, bola, traves, ter um campo, que vou ser um Kaká. A facilidade de gravar e jogar na internet, num desses MySpace, não dá talento a ninguém.
O que será das lojas de discos? Aqui em Belém elas acabaram. Algumas ainda em magazines. E dizem que uma das causas da banalização da venda de cds foi sua entrada em super mercados. Há uns dois anos, em Londres, estava em uma daquelas megalojas, HMV e ao meu lado, dois adolescentes conversavam, enquanto manuseavam lançamentos. Um pegou o cd e disse que ia comprar. O outro disse que não se preocupasse, pois faria download e lhe daria. Já a maior parte dos compradores era da faixa etária acima dos 30, ainda viciada em cds. Nos Estados Unidos, tiveram grande queda de movimento e hoje, o espaço onde os lançamentos se amontoavam está sendo ocupado por games, dvds, ou catálogo, muito catálogo. Aqui no Brasil a Warner botou seu catálogo na rua, cobrando 23 reais por unidade. Ainda está caro. Quem vai comprar? A coleção de cds de Elis Regina. Ponho o computador para baixar, gratuitamente. Quantas músicas de Elis cabem em um cd? E em um iPod? Quer dizer que toda a carreira, todo o trabalho, todo o suor de Elis cabe em meu iPod? E quanto paguei por isso? Percebem a dificuldade em contabilizar? O trabalho de uma vida, de um gênio da mpb, contido em um aparelhinho. Os miseráveis, desprovidos, gritam por Cultura com suas armas, sua linguagem. Recriam, reinventam o mercado, com novas normas e preços. É assim o sistema da Banda Calypso, que até incentiva a pirataria, para faturar nos shows. Até me pergunto por quanto tempo Chimbinha manterá aquela banda enorme, com tantos músicos e bailarinos. Até aparecer outra tecnologia que barateie isso? O funk e o tecnobrega, guinchos da falta de Cultura, não pagam ICMS, vendem em camelôs, na informalidade. E aí, como fica? Continuo comprando cds. Da maneira pela qual me acostumei a ouvir música, não consegui me acostumar com o iPod. Também implico com fones de ouvido, que não se adaptam à cartilagem das orelhas. Enfim, compro na Modern Sound, belíssima loja no Rio de Janeiro, na qual sou cliente por uns 35 anos, ao menos. Fica na Barata Ribeiro, Copacabana, em um espaço onde foi um cinema. Com o tempo, passou do vinil para o cd. E agora? Mantém um piano bar disputadíssimo para lançamentos e no meio da tarde, meramente deixar-se ficar ali, ouvindo o pianista tocando clássicos de jazz é de um prazer real. Sua clientela é baseada nos turistas da Cidade Maravilhosa, e compradores de idade acima de 30, 40 anos, atrás de música popular brasileira, jazz e erudita. Quanto tempo ainda durará?
A pirataria está livre, nas ruas. Na Avenida Paulista, no Stand Center, coreanos vendem em dvds piratas, filmes que nem estrearam ainda nos cinemas. Com legenda e até traillers. É jogar no chão, na lama, o trabalho de técnicos, autores, atores, diretores e outros muitos. À merda com a indústria, tudo bem, mas como ficam os profissionais que dependem disso? É preciso encontrar outra maneira de ganhar. Imaginem aqui no Brasil. No Norte e Nordeste, pirataria. No Sul e Sudeste, download.
O que ninguém diz é que no meio deste campeonato, foi pras cucuias a qualidade do som. Ta? No tempo do vinil, inventaram até o som quadrifônico, lembram? Agora, com o fantástico design das caixas para iPod, MP3, sistemas de dvd, cadê a qualidade, já que a taxa de compressão do MP3 é baixa? O som virou uma porcaria. Somos tão exigentes, queremos ser tão modernos, avançados e tudo é cosmética. Aparelhos nanos, novas cores, novos formatos, a cada seis meses, tudo de novo e no entanto, o som, a razão de tudo, é uma porcaria. Devíamos reclamar de maneira mais enfática. Com tanta modernidade e pesquisa, não fazem som melhor? Ainda estamos sujeitos a problemas de audição? Onde estão os engenheiros de som, pesquisadores das ondas sonoras? Enfim, blábláblá, lero lero sobre discos e música.

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criado por edyrap.bel
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