26.11.07
A Barbárie já está aqui
Alberto Carlos Almeida escreveu recentemente um artigo na revista Eu&, que vem encartada semanalmente no jornal Valor, a respeito da falta da valorização da Educação no Brasil. Para que tenham idéia, em 1876, cerca de 20% da população adulta da Grã Bretanha era analfabeta. Pois em 1991, 20% da população adulta do Brasil era analfabeta. Almeida acha que tem a ver com o catolicismo, porque em países protestantes, a obrigatoriedade da educação formal é absoluta e esmagadoramente clara em resultados positivos. Aqui, diz Almeida, pais e filhos festejam o final das aulas, em dezembro. Em outros países, acontece o oposto. O primeiro dia do ano letivo é uma festa, com o reencontro dos alunos na Escola. A Educação é um valor. Aqui, comemoramos o início das férias.
Li na coluna do veterano Villas Boas Corrêa, um trecho do livro “O Brasil tem jeito?”, de Arthur Ituassu e Rodrigo e Almeida, que diz: a população brasileira não dispõe de qualquer bem público de modo instituído e universal, seja Educação Básica de qualidade, um sistema decente de Saúde e Saneamento, um modo de Justiça eficiente, igualitário e de fácil acesso ou garantias mínimas de segurança na vida em sociedade.
Tudo isso está diante de nós enquanto o mundo, hoje, se farta com o noticiário vergonhoso sobre a situação em nossas cadeias. Vivemos a barbárie instalada, não sei se definitivamente. As pessoas estão embrutecidas, estúpidas. Todos os valores que a sociedade foi construindo, foram demolidos. É o retorno à selva. Lei do mais forte. Onde está a civilização? E a culpa também é nossa, que nos julgamos inteligente, cultos, hábitos refinados e aos primeiros sinais da horda de bárbaros correndo para assumir os postos de mando, com a democracia, caímos fora, enojados. Pois eles assumiram. O resultado é esse. Não temos Cultura, Educação, Saúde, Saneamento, Justiça. E vai piorar ainda mais. O que serão os jovens que estão aí? E as crianças que conseguirem sobreviver? Nós, anestesiados. A massa se vira para viver. Constrói outro mundo. Leio a lista com nomes que pretendem concorrer à Prefeitura e me desalento. Por favor, tenham dó! Não façam isso. Não nos deixem correr o risco de tê-los como alcaides.
No domingo, na HBO, um seriado com legendas, mas dublado. Chega a ser cômico. As pessoas não conseguem acompanhar as legendas. Leitura lenta. Não tem registro. Não tem registro.. São os analfabetos funcionais. Sabem ler e escrever (os que sabem), mas não compreendem nada. Assisti no GNT um especial sobre o funk carioca. Meninas explicando letras como “bota, bota tudo, bota até as bolas”. E as danças, super sexy. Elas, bem marrentas, imaginando penetrar o mundo masculino, dividindo as ações, algo feminista. Não é. Penetram o mundo masculino, de maneira masculina, exatamente no que ele tem de pior, motivado pela ausência de tudo. Eles se defendem, dizendo que na Globo, oito da noite, tem gente fazendo sexo e o funk também pode dizer. É marra, é desafio, na construção de um universo paralelo, com outra língua, normas, tudo. E temos aqui o “quem quer comer a minha periquita”. É o grito de socorro do povo, que reconstrói suas ruínas, reaproveita o que foi jogado fora, reinventa. Um funkeiro, cheio de razão, reclama que a zelite não querem deixar que a comunidade brilhe. O som é dos desempregados, dos favelados, dos “eu sou pobre, fodido, mas esse é meu som e meu som é entendido por aqueles iguais a mim”.
Em uma coluna esportiva, a reclamação de policiais que ficaram apenas olhando integrantes de duas torcidas organizadas, extintas pela Justiça, torcendo no Mangueirão, ao invés de prendê-los. Como prender o vizinho, amigo de rua, companheiro de miséria, qual a diferença entre o uniforme de Polícia e o uniforme da torcida?
A vida não vale nada. Sábado à tarde, na Riachuelo, entre os dois prédios, Renascença e Piedade, um casal discute. Ele é guardador de carros. Passa o dia por ali, tomando uns goles, fumando umas. Ela, faz programas. Ele não gosta. Mas é que há dois meninos, bem tratados (defina bem tratados..), na medida do possível. Eles discutem alto. Vivem na rua. A rua é a casa. O mundo. Todos nas janelas assistindo. Súbito vem um que estava com uma prostituta, com quem também discutia sobre preço. Traz embrulhado em folha de jornal dois terçados. Resolve assustar o guardador de carros. Tira um dos terçados e brande. O guardador sai correndo. Agora surgem dois amigos seus que enfrentam o rapaz do terçado. Como eu disse, havia duas armas. Uma caiu no chão. Agora está em mãos de um dos amigos do guardador. A briga está na Presidente Vargas. Eles lutam como espadachins. O que não tem arma joga pedras grandes sobre o rival. Saem da minha visão. Desço, porque precisava sair e me dizem que o agressor, o homem que brandiu o terçado, acabou atropelado e está morrendo, adiante. Vou lá. Quase em frente ao Palácio do Rádio. Um gringo passa a mão no rosto, atordoado. Ta lá um corpo estendido no chão. T Rex, o personagem, não tira os olhos. O carro teria passado sobre sua cabeça. Ele sangra. Respira em espasmos. Chamaram a ambulância. A vida não vale nada. Agora, dias depois, me dizem que ele ainda resiste. Sua família promete liquidar o guardador de carros!
Já estamos vivendo a barbárie. Somos caçados, importunados, extorquidos, acusados, exatamente por ter Educação, Cultura, Saúde, Saneamento, não interessa como cada um a tenha obtido. Somos culpados. Todos nos cobram. Eu cobro. Mas o que eu cobro é atitude, se é que ainda há tempo para isso. Nós permitimos tudo isso. Seguidamente, nas eleições, há 80 anos, sei lá, nos juntamos em grupos de interesses, coisas mesquinhas, deixando para lá nosso futuro. O resultado é a barbárie. Ela já está aí. Voltamos para a selva. Mesmo nós, na cidade, em uma selva de concreto. Esgueire-se e desvie do tiroteio. Cuidado porque uma bala perdida pode lhe achar.
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criado por edyrap.bel
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