26.12.07
luxo 1
LUXO 1
A idéia veio quando aguardava o início de um show (que afinal de contas não terminou por conta da chuva) em Macapá e assisti a entrada de vips locais, sobretudo a família do Governador. As roupas, a postura. Fiquei pensando o que seria vip em Macapá. Luxo em Macapá. Tanto quanto vip em Belém. Luxo em Belém. Curioso como o microcosmo estabelece suas regras. Em suas ruas esburacadas, quase sem calçadas, marcas fashion como Zoomp, ocupam casas, prédios de um pavimento, procurando, ali, constituir algo de sua nobreza, sua qualificação. Paulinho Moska elogia o tênis de Flávio Venturini e pergunta onde comprou. Em Madri. Mas isso depende do artista. Da pessoa.
Então, já em Belém, zapeando, passei no programa Saia Justa, que gosto por conta de Maitê Proença, a parenta linda e inteligente, bem como a filósofa Márcia Tilburi. Comentavam a entrevista do francês Gilles Lipovetsky, a respeito do luxo. Hum, muito bom. Lembrei do povo rico de Macapá. É que fomos almoçar em um restaurante típico de lá, às margens do que eles chamam igarapé, mas pareceu riozinho. Ribeirinhos, pescadores, barquinhos, e andando em volta, encontrei um galpão onde vejo umas oito lanchas gigantescas, modernas, lindas, guardadas. Coisa dos ricos de lá. É preciso mostrar que se é rico. Griffes, a cada coleção, parecem aumentar o preço de seus artigos, na luta para se impor junto ao cliente, fazê-lo sentir no bolso o esforço para alcançar aquela estética. É preciso proteger a marca do povão, que vai ficar apenas desejando ou usando pirata. O luxo seria o inatingível para a maioria? Aquilo que simboliza exceção? O que poucos, o mínimo podem ter? A griffe, o luxo confere status?
Alguém comentou que nos últimos anos grandes marcas se tornaram mais acessíveis, sobretudo aos novos ricos, que as desejam para confirmar status. Luxo acessível como senha para entrar nos happy few. Assim, uma bolsa Louis Vuitton, é encomendada, no Rio de Janeiro, por exemplo, por vinte e cinco mulheres. Cada bolsa, cinco mil reais. São happy few. Reparem como as lojas das griffes mais caras ficaram mais acessíveis, os vendedores mais simpáticos. Um amigo, na Oscar Freire, viu um relógio Panerai, em uma vitrine. Pareceu-lhe custar R$2.500, com o que animou-se. Entrou, foi recebido como rei, ofereceram-lhe água, café, refrigerante, talvez um licor. Falou do relógio que lhe foi trazido. Provou e ficou perfeito. Perguntou quanto e lhe responderam “dez de dois e meio”. Como assim, cretino, respondeu. Dez prestações de R$2.500. Lívido, recompôs-se, pousou no relógio no mostruário, e procurando parecer indiferente, entediado, disse que pensaria no assunto e retornaria, ao que saiu da loja, nem tão rápido que parecesse fuga, nem tão lentamente que parecesse uma provocação. Diferente de Danuza Leão, que em uma revista, disse que os muito ricos, são diferentes. Quando viajam, é em primeira classe, mas para lá vão com sua pashmina, não precisando o cobertor oferecido pela companhia. E a pashmina verdadeira, aquela que passa por dentro de uma aliança. Muito ricos não vestem griffe. Suas roupas são de alguns poucos lugares, bastante exclusivos, mas eles sabem. Seus carros são importados, mas de uma marca não muito evidente, e com modelo de uns quatro anos atrás, pois são tão bons, que raramente vão para conserto e têm, sempre, alto valor de revenda. Para Danuza, o luxo não é somente demonstração de riqueza, mas a procura da beleza através do refinamento.
Como ficam os pobres, nesta situação? Alguns assaltam para tomar um tênis Nike. Outros usam t shirts onde o nome da griffe, enorme, é estampado. A marca serve de status. Adiante, prossigo isso.
Bem, pode-se aplicar o conceito do luxo em muitas outras áreas. Para mim, luxo é ter Cultura. Tendo, todo esse refinamento explicado acima é decorrente. Sem Cultura, é como vestir uniformes que não nos pertencem, de verdade, pois no momento em que formos cobrados por os estar vestindo, ficará claro nossa falta de identidade. Não pertencemos àquele mundo. Emprestamos os uniformes, mas não damos conta das exigências. Para mim, luxo-Cultura, seria para todos, democrático. Mas assim, deixaria de ser luxo? Certamente, dentro do refinamento, iria adiante, mais exigente.
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criado por edyrap.bel
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