26.12.07
luxo 2
LUXO 2
Gilles Lipovetsky disse que a sociedade prega o prazer, mas também traz com isso a depressão, ansiedade, stress e inquietude. Quanto mais ganhamos, menos somos felizes. Podemos comprar prazer, ou momentos de prazer. Eu sou infeliz porque não tenho aquele cinto de couro da Ellus, que acabou de sair e ainda não chegou aqui, ou já encomendei e não veio, ou não tenho dinheiro para comprar. Rousseau diz que “a felicidade está na relação da pessoa com ela própria e com os outros”. Em outras palavras, aquele milionário que passou, pode ser infeliz. Temos tudo e não somos felizes. A felicidade é frágil.
Então, essa procura incessante por prazer. Queremos o Paraíso aqui e agora e não levar uma vida de sacrifícios para merecê-lo ao morrer. Confirmem tudo isso na entrevista de Lipovetsky à revista Cult, nas bancas. Mas também leiam O risco de cada um, do psicanalista Jurandir Freire Costa, sobre a relação do sujeito com a transcendência. Parece complicado, mas não é. Pelo contrário. Jurandir estudou sobre a sexualidade, romantismo amoroso, culto ao corpo, fascínio pelas celebridades midiáticas e o consumismo, que vieram ocupar o lugar deixado pela perda de autoridade da política, família, religião, apreço pelo trabalho e etc.. Ele acha que há uma renovação de valores, um rearranjo do ideário moral básico. Na cultura ocidental, a idéia de Deus e transcendência divina, teve matriz religiosa judaico cristã e ideais de persuasão racional da cultura grega, que nos deram os instrumentos fundamentais para discernir entre o desejável e o condenável na conduta ética. A moral do sacrifício exige a renúncia do sujeito a uma parte da satisfação que pode obter com o gozo sexual ou agressivo, em nome do dever de amar ao próximo e a Deus. Em nossos tempos atuais, o prazer veio na frente, como sinônimo de liberdade e felicidade pessoal, sem se sacrificar, pagar promessa por isso. Eu tenho, eu posso, eu faço por mim. Mas há perdas das virtudes morais públicas e privadas. Não que tudo seja amoral. A cada vez que a base moral é atacada, respondemos tipo “o mundo está perdido, no meu tempo, antigamente filhos respeitavam os pais”.
Voltando aos pobres. E ao luxo, de onde não saí, creio. Antigamente, o pobre ensinava aos filhos a viver, ter o que comer, onde morar, tudo bem simples, bem pobre. Hoje, com o hiperconsumo, pobres roubam os ricos por um Nike. E os meios de comunicação, agridem sem parar os mais pobres com chuvas de anúncios, ofertas de produtos, oferta de estética, outro mundo, colorido, rico, lindo, meninas, meninos, um céu, exatamente em um país onde a maioria não tem acesso a nada. É cruel. O consumo cria uma frustração nos pobres, porque se ao menos tivessem trabalho, Cultura, moradia, sonhariam em uma medida crescente, em cada um, em cada medida, e não nessa chuva que não podem alcançar. Não é o consumo que está errado e sim a não existência dos meios para os mais pobres desenvolverem suas aspirações. Então, o luxo vem como que preencher esse vazio. Enquanto colocamos três mil músicas que nunca iremos ouvir em um iPod, outros compram produtos piratas para ter acesso a um simulacro de estética. Vale a pena pensar sobre isso.
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criado por edyrap.bel
15:20:40